Por alguns momentos voltei ao passado, me lembrei das bombas nas bancas de jornais que vendiam tabloides de esquerda, dos jornais recolhidos ainda nas... A Retórica do Ódio

“Sabe quem inventou o gabinete do ódio? Foi o Lula. Pergunta o que é o DCM, o que é o 247… Tudo dinheiro sujo, tudo roubalheira, tudo jornalista bandido. Formado sabe onde? Nas organizações Globo e na Veja. Gente que aprendeu a fazer molecagem na direita mais bandida e que, agora, por dinheiro, está prestando serviço à esquerda bandida que o PT representa.” Estas acusações foram disparadas pela metralhadora giratória de Ciro Gomes no dia 18 de maio, em um programa da TV Democracia. No arroubo em igualar o ex-presidente Lula a Bolsonaro, Ciro fez declarações, no mínimo, ofensivas e que ferem um dos direitos mais preciosos dos jornalistas, a liberdade de imprensa e de expressão.
Conheço de perto os sites progressistas brasileiros e sei bem das dificuldades financeiras dos colegas que abriram mão de altos salários em grandes empresas de comunicação para realizarem o sonho de fazer um jornalismo independente. Boa parte deles sobrevive com parcas contribuições espontâneas feitas por seus leitores. E nem poderia ser diferente, já que os grandes anunciantes privados e governamentais destinam suas verbas publicitárias para a mídia tradicional, que detém as maiores audiências nacionais.
Faço parte do corpo editorial do Brasil 247 ao lado de grandes brasileiros como o economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, a advogada e professora da UFRJ, Carol Proner, do diplomata Celso Amorim e do sociólogo Jessé Souza, professor visitante da Universidade Sorbonne, em Paris. São pessoas íntegras e honestas, que socializam seus conhecimentos e elaboram propostas para a ampliação da Justiça Social e da redução da pobreza em nosso país. Trabalhei no passado ao lado de boa parte dos colegas jornalistas do Brasil 247 em importantes redações de São Paulo. Nos anos 70 e 80, enfrentamos juntos a censura e a repressão policial-militar dos anos de chumbo. Época em que muitos colegas jornalistas foram presos e torturados até a morte, como foi o caso de Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura.
Participei da entrevista em que Ciro comparou os sites progressistas com o gabinete do ódio do fascismo. O mal-estar foi geral, principalmente entre os jornalistas mais rodados como eu, o Fábio Pannunzio, o Weiller Diniz e o Milton Blay. Por alguns momentos voltei ao passado, me lembrei das bombas nas bancas de jornais que vendiam tabloides de esquerda, dos jornais recolhidos ainda nas gráficas pela policia política. Era um jornalismo militante, de resistência em que a ditadura militar fez de tudo para calar.

Nos primeiros anos da faculdade escrevi meu primeiro artigo. Ele foi publicado num dos principais tabloides, o jornal “Opinião”. Naquela época meu pai vivia no exílio no Canadá. Em uma carta ele conta que como fazia toda a semana, comprou em uma banca em Toronto publicações do Brasil. Como o dia estava bonito, sentou em um banco de uma praça e ao abrir o jornal Opinião deu de cara com meu texto: A Burguesia Com Pressa. Disse que ao ler o texto teve a sensação de estar ao meu lado. Que as lágrimas escorreram pelo rosto na emoção forte dos que foram obrigados a viver longe da família e do país. Preocupante que pessoas do campo progressista tenham se esquecido destas histórias. Espero que Ciro Gomes reflita sobre suas afirmações, elas não condizem com sua trajetória de vida.

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  • Luis Fernando Irgang dos Santos

    20 de maio de 2020 #1 Author

    Achei também um pouco exagerado da parte do Ciro e, obviamente nåo se pode generalizar.
    Mas nåo se pode esquecer que estes e outros blogs petistas “inauguraram” as fake news no ambiente virtual na campanha de 2014. Basta ver como massacraram a candidata que liderava as pesquisas, Marina Silva. De forma covarde e baixa, tiraram a Marina do páreo. E assim o fazem com qualquer político do campo progressista que ouse ameaçar a hegemonia petista. Basta deixar a paixåo de lado para enxergar algo tåo óbvio.

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  • Mateus A Nogueira

    20 de maio de 2020 #2 Author

    Muito bonita a matéria, não fosse o fato de que ignora, convenientemente, as várias matérias difamatórias veiculadas pelos veículos 247 e dcm, que já não fazem mais questão de fingir uma postura isonômica e publicam matérias com o óbvio objetivo de difamar e desmerecer a digna tentativa de busca por espaço do Ciro Gomes, unicamente por ele declarar sua divergência aos petitas que hoje dirigem os rumos do partido. O termo gabinete do ódio, apesar de recente, serviria como denominação do trabalho difamatório realizado por esses mesmos blogs contra a reputação da marina silva, que também é vitima da mesma covarde tentativa de reduzir as criticas ao mofado PT a categoria de ressentimento, mágoa, inveja.
    Além disso, fica ainda mais escancarado o jornalismo partidário, falacioso, cínico dessas pessoas quando notamos a ausência evidente de conteúdo afim de divergir das ideias ou acusações que o Ciro Gomes faz. São pequenos conteúdos, porcamente produzidos e veiculados com chamadas de duplo sentido, de vergonhosa subjetividade, afim apenas de desmerecer a figura do sujeito que tem ABSOLUTO direito de criticar e divergir da religião lulista. Se trata disso, defesa patológica do político a que dedicam fidelidade manca e nada crítica, seja com que armas forem necessárias. Lhes aviso que não durará para sempre essa narrativa arrogante, o antipetismo, apesar de novelizado, não é injustificável e não retroagirá nunca mais. O outrora partido dos trabalhadores, fonte de esperança, de oposição, teve por 12 anos a oportunidade de mudar os rumos do país e falhou, cumpriu pouco do prometeu e cometeu muito do que antes condenava. Portanto, o agora PCPL, partido do culto a personalidade do lula, nunca mais conseguirá convencer a maioria da sociedade de que merece sua confiança, estando fadado ao mesmo destino do também desmoralizado PSDB. Abraço.

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  • Boeotorum Brasiliensis

    21 de maio de 2020 #3 Author

    Eu tive o desprazer de assistir a entrevista com Ciro. O fiz pela mesma razão que presto atenção no que dizem outros líderes políticos no atual momento, a necessidade de entender o quadro político e como se arranjam as correlações de força. Eu não me alinho àqueles que idolatram o ex-presidente Lula, como não acolho o preconceito e as manifestações de ódio contra ele. Faço reparos ao seu exercício da política, como não deixo de reconhecer seus méritos. Não julgo ninguém por uma régua e muito menos uma pessoa que administrou um país imenso, diverso, pleno de conflitos e com grandes desafios a enfrentar. Governar é a arte de negociar e fazer política é buscar o bem comum. Nada disso se faz sem ceder a um certo pragmatismo. Costumo dizer que o pragmatismo é a ante-sala da corrupção e há uma linha tênue que os separa. Usar do primeiro sem entrar na segunda exige um malabarismo extremo e constante. A habilidade politica e a boa de análise de custo benefício são determinantes para o sucesso.
    Ciro sabe disso e como governador deve ter lidado com a mesma situação e com seus dilemas. Não imagino qual governante brasileiro, de prefeito a presidente, que submetido à barragem de fogo, à artilharia de saturação pelo que passou Lula, resistiria. Ciro, resistiria?
    Entretanto, Ciro não leva em conta qualquer fato mitigador e nega espaço ao diálogo amplo e o que se deduz a opção é pelo exercício de egocentrismo, onde o sucesso do país passa por ele ou, simplesmente, não passa. Ciro não é um poço de ressentimento como dizem, é uma montanha de incongruências formada na sua ambição de ser presidente. É agressivo por estilo e por estratégia política, um sabido e a outra evidente, ambos dispensando explicações.
    Esse estilo e estratégia não funcionaram em 2018, não funcionarão em 2020, quiçá, mas duvidoso, em 2022. Mas, o egocentrismo não permite ver o erro. Não conseguirá os eleitores de centro por rejeitarem esse modo conflituoso. Primeiro, porque só bater na esquerda não bastará. Segundo porque o eleitor brasileiro da direita moderada à centro esquerda está em busca de paz e pregar união com base na virulência e violência verbais confunde e afasta. Mesmo que a estratégia de isolar a esquerda e anular Lula dê certo, criará no caminho tamanha rejeição que afastará qualquer possibilidade de conquistar adeptos nesse espectro ideológico.
    E, por fim, há um fator que parece esquecido por todos, Bolsonaro não se sustenta, mas não será derrubado. Cairá enredado em sua própria incompetência. Veremos um auto-golpe, mas não para tomar o poder, mas para auto defenestrar-se. Então, se estiver certo, essa frente, ou melhor, esse balaio de gatos que o oportunismo está cevando, não terá nem utilidade, nem mérito e muito menos trará frutos políticos para seu líder.
    Se Ciro manter os 12% de preferência no eleitorado vai ficar de bom tamanho.

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