Assim como Deus, a democracia é uma abstração. A percepção que se pode ter sobre este regime político é bastante variável. Aos longo dos... Abstração e realismo político

Freud, quando escreve “O mal estar na civilização”, inicia a obra com a pergunta sobre o que é Deus. Algo como um “sentimento oceânico” é a resposta possível, de modo que ele mesmo invoca com isso a ideia de profundidade e ausência de limites para perceber e sentir determinada coisa. Desejos individuais e expectativas sociais estariam em constante conflito, sobretudo quando consideramos o quão divergentes podem ser o significado de um conceito e a experiência ou sentimento real que ele produz em cada indivíduo. O mesmo ocorre com a percepção da democracia.

A vasta literatura da ciência política explica o que significa democracia, bem como as suas regras e procedimentos. Isso basta para que funcione de acordo com as expectativas depositadas sobre ela? Não basta. A percepção de cada grupo social é diferente, assim como os efeitos que o regime democrático produz, as vezes antagônicos aos seus próprios ideais de inclusão e justiça. A democracia permite, afinal, o ingresso ao poder institucional sujeitos que optam pela redução das oportunidades de seus concorrentes. Isso vemos ocorrer na prática na história recente brasileira, desde a hiperpolarização e os desejos (e pulsões) de destruição de determinadas correntes ideológico-partidárias. Os últimos perseguidos foram os petistas, mas tudo indica que os próximos serão os bolsonaristas.

Desde Collor, primeiro presidente eleito por meio de voto popular direto, quando a democracia se reestabelece no Brasil, paira sobre todos os pretendentes a chefes máximos do Executivo, a ideia de que podem acabar com as injustiças e a corrupção. Collor, afinal, vence com o discurso “caçador de marajás” e a ideia de que precisa “acabar com a política tradicional” (aludindo aos corruptos da ditadura); Itamar, que ascende depois do impeachment, tem fama de incauto, e acaba bem aceito por isso; Fernando Henrique, intelectual com imagem ilibada, não se assemelha aos “corruptos políticos tradicionais”; Lula, representante do povo, se distingue dos demais por meio do discurso “nós contra eles”; Dilma leva fama de “faxineira” em seu primeiro mandato por demitir diversos políticos tradicionais – e depois mantém a honra de jamais ter se envolvido em qualquer esquema de corrupção, embora seu Governo tenha sido menos honroso corruptamente falando; Temer assume dando esperança a alguns de que eliminaria, com isso, a corrupção do PT; Bolsonaro é eleito com o discurso de acabar com “tudo o que está aí”.  Neste sentido, os brasileiros escolheram sempre os que mais bem demonstraram, cada um a seu tempo, ser diferente da política tradicional.Um sempre, portanto, querendo destruir o anterior ou não deixar margem de manobras para o próximo. Jamais conseguiram, visto que em absolutamente todos os governos democráticos deste Brasil houve casos corrupção, havendo ou não participação direta dos chefes do Executivo. Ainda que não tenham participado, seus respectivos governos corruptos macularam a imagem não apenas das lideranças como também da própria democracia.

É difícil explicar o que é democracia para quem não compartilha o mesmo sentimento ou o mesmo desejo ou a mesma pulsão de que é preciso respeitar os procedimentos para que o regime funcione com mais vigor e efetividade. Sobretudo, é difícil explicar o que é democracia para um país inteiro com baixíssima educação e amplo acesso às redes sociais onde circulam, diariamente, inúmeras informações falsas sobre o que o ocorre com a política nacional, e o que de fato fazem os governantes e seus aliados. Mas assim como Deus, pode ser que a democracia exista em alguns aspectos, embora seja tão abstrata quanto essa entidade divina. O “sentimento oceânico” que se pode extrair dela não é, portanto, meramente ficcional, embora o sujeito precise ser “tocado” de algum modo para perceber que ela existe.

Com o abandono de Sérgio Moro do Governo Bolsonaro, a roda democrática opera mais uma vez. E, como vimos, é evidente que gira a favor daqueles que se opõem aos governos corruptos tradicionais. Moro se fez assim combatendo ilicitudes do PT, e agora faz a mesma aposta combatendo as ilicitudes de Bolsonaro. Mas Moro já é personagem político. Não está fora do jogo, não está fora do universo simbólico político. Quem poderá barrar as suas próprias e eventuais ilicitudes? Qual poder abstrato? Deus? A democracia? Talvez a democracia por meio de suas instituições de Justiça. Mas o que acontece se Moro representa, para alguns, a própria Justiça? Freud explica? A ciência política explica? Não há conceito para as ações que serão tomadas pelo ex-Ministro nos próximos dias, mas considerações podem ser feitas: ele segue com amplo apoio e bastante presente no imaginário popular, o apreço de alguns governadores, e inteligência estratégica. Talvez as próximas ações nos façam criar novos conceitos, os quais hoje não se pode explicar. A realidade política, neste caso, tende a ser mais forte que a abstração.

Juliana Fratini
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