As Forças Armadas – o título é sutilmente diferente – sentem os ferimentos na trincheira governista após o alistamento no destacamento do capitão. O... As Forças Armadas, por Weiller Diniz

As Forças Armadas – o título é sutilmente diferente – sentem os ferimentos na trincheira governista após o alistamento no destacamento do capitão. O calo no coturno incomodou após a alvorada do ministro Gilmar Mendes, alertando quanto a possível associação com genocídio, mal interpretado pela tropa como ato hostil. A munição semântica usada no revide é diversionismo diante do iminente controle de danos. O engajamento no governo tem iluminado o despreparo e maculado patentes.

O general Eduardo Pazuello é a estrela mais alvejada. Independente de qualificação em outros flancos, não exibiu as divisas mínimas no combate a pandemia.

Nos 2 primeiros meses sob o comando dele na Saúde, os infectados multiplicaram por 10 e as baixas por 5. Menos de 30% da verba emergencial destinada ao combate da Covid foi utilizada, atestou o TCU. O paiol do Exército estocou cloroquina para 18 anos, a um custo elevado, enquanto a pátria amada recende o odor desolado das necrópoles.

A tática Pazuello de sobrevivência na missão foi a camuflagem. Dispersou o batalhão de jornalistas ali entrincheirados e retardou dados para esquivar-se da alça de mira do telejornal de maior audiência.

Na Câmara, sem a proteção da caserna, teve desempenho de recruta e congelou o país com seu domínio climático. Assim como os preceptores de 1964, ensaiou ainda esconder os mortos. Foi rebaixado pelo STF e obrigado a divulgar o balanço diário da Covid.

General Eduardo Pazuello (foto Orlando Brito)

General de divisão, Pazuello, bateu continência para o obscurantismo, condecoração comum na infantaria bolsonarista. “Nasci em 1963, não sei nem o que é AI-5, nunca nem estudei para descobrir o que é”.

Foram 17 atos autoritários e ilegítimos. O AI-5 foi o auge da repressão. Lacrou o Congresso, baixou a censura, suspendeu o habeas corpus e proibiu reuniões. A “mão amiga” disparou contra seu próprio povo e os quartéis espalharam torturas, mortes, exílios, desaparecimentos e outras atrocidades.

Depois dos mortos da Covid, Pazuello quer ignorar os crimes perpetrados por facínoras – ídolos do capitão – como Brilhante Ustra, Curió, Freddie Perdigão, Sérgio Fleury nos DOI-CODI, DOPS, CIEX e outros porões infectos. Desconhece o Riocentro, a carta bomba a OAB, que matou Lyda Monteiro, e o terrorismo contra os jornais.

A alienação orgulhosa assombra mais que a ignorância. A história é o presente dissecando o passado para iluminar o futuro. Nunca é passado. Se eterniza fúnebre quando há crimes.

Outras fortificações da Saúde estão sob a sentinela militar. O secretário de Atenção Especializada à Saúde, coronel Luiz Otávio Franco Duarte, despachou uma ordem unida para uso da cloroquina, remédio sem eficácia comprovada, rechaçado pela ciência e autoridades mundiais de saúde. Charlatanismo, curandeirismo e exercício ilegal da medicina estão no Código Penal.

General Augusto Heleno (foto Orlando Brito)

Outra farda manchada, da reserva, é Augusto Heleno, do GSI (Gabinete de Segurança Institucional). Egresso da cavalaria, revelou-se um cavalariço acrítico. Um sargento traficou cocaína no avião presidencial e ministros fraudaram currículo sob sua vigilância. Emitiu nota intimidadora, apresentou-se em ato golpista, deu murro em mesa e ignorou a gravidade da reunião ministerial de 22 de abril. Após Alemanha e Noruega cortarem os fundos da Amazônia, a reação: “Vão procurar sua turma”. Ele frequenta as redes escudando notas militares, incensando direitistas, insultando adversários e confrontando notícias. Parece meio ocioso e desatento.

A farda é uma farra, também. A Casa Civil, do general Braga Neto, autorizou a nomeação da filha dele para uma gerência na ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). O recuo só veio depois da granada nepotista explodir.

A filha de Pazuello emplacou no governo do Rio. A filha de Eduardo Villas Bôas ganhou um posto na pasta de Damares. O filho do vice Mourão teve 2 promoções em 6 meses no Banco do Brasil. Carlos Bolsonaro comentou: “Nova promoção! Parabéns”. O comando é do capitão: “Se eu puder dar um filé para meu filho, eu dou”. O erário é público, não doméstico.

General americano Mark Milley

O chefe das forças armadas dos EUA, Mark Milley, caminhou com Trump e posou para fotos. No dia seguinte pediu desculpas à nação pelo “erro”.

No Brasil a guerra é para engordar soldos e tirar selfies. A promiscuidade do clã Bolsonaro com milícia é negligenciada. O Exército assiste sua reputação ser bombardeada na escolta à armada de Bolsonaro.

Os aquartelados na Saúde correm o risco de acusações como coautores de um morticínio. O ministro que não estudou o AI-5 poderia revisar a história e o cerco a genocidas, em vários fronts, inclusive no Tribunal Penal em Haia.

Augusto Pinochet, o ex-ditador chileno (foto Wikimedia Commons)

O juiz espanhol, Baltazar Garzón, ficou mundialmente conhecido ao emitir a ordem de prisão internacional contra o ditador do Chile, Augusto Pinochet, pela morte e tortura de cidadãos espanhóis com base no relatório da Comissão da Verdade.

A prisão por 503 dias de Pinochet, em 1998, quando era senador vitalício do Chile, mostrou que os juízes também podem abater os violadores de direitos humanos com mísseis transcontinentais.

Primeiro a liderar a junta militar da Argentina, Jorge Videla, foi acusado de crimes de tortura, desaparecimentos, mortes e sequestro. Foi o ideólogo da repressão. Mais de 30 mil morreram ou desapareceram. O militar chegou ao poder em 1976 através do golpe e ficou até 1981. Com o retorno da democracia, Videla foi condenado em 1985 à prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Indultado por Carlos Menem, voltou a ser preso e morreu na cadeia. Argentina condenou mais de 200 militares e civis por crimes.

O julgamento de maior projeção foi o de Slobodan Milosevic. O ex-Presidente da Iugoslávia foi acusado de genocídio e crimes contra a humanidade na Bósnia, Kosovo e na Croácia. Primeiro ex-chefe de Estado a sentar-se no banco dos réus de um Tribunal Penal Internacional, o julgamento era visto como paradigmático. Antes do julgamento, ele foi encontrado morto na sua cela em Haia.

O militar congolês Germain Katanga recebeu uma pena de 12 anos de prisão do Tribunal por crimes contra a humanidade. O ex-comandante do Estado-Maior Exército ruandês, Augustin Bizimungu foi condenado por genocídio a 30 anos. O ex-general croata Ante Gotovina foi sentenciado a 24 anos de prisão. Dragor Milosevic, general sérvio-bósnio, sem parentesco com o ex-presidente, pegou 33 anos. Há outras condenações e processos em andamento.

Jair Bolsonaro no Alvorada (foto Orlando Brito)

Contra Jair Bolsonaro são 3 denúncias no Tribunal Penal Internacional sob a alegação de crimes contra a humanidade e negligência no combate a Covid. Também há outra denúncia envolvendo os povos indígenas.

De lá para cá ele já circulou infectado, prescreveu medicamento inócuo, recomendou invasão de hospitais, tirou a distribuição de água potável para índios e vetou uso de máscaras em presídios.

A corte de Haia entrou no radar da guarnição. As análises pós-pandemia podem não repetir padrões anteriores. A brigada irá descobrir que o poder é efêmero, a infâmia eterna e a terra é, irrecusavelmente, redonda e, por isso, dá voltas.

Forcas para crimes contra a humanidade estão armadas mundo afora. Aqui, a farra da farda capitulará diante do centrão. A barricada na cidadela contra o cerco é inútil. O capitão, sitiado, sempre sacrifica os soldados.

Weiller Diniz (25/07/2020)

Equipe TV Democracia

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