Para atacar governadores, Bolsonaro volta a lançar mão de notícias falsas sobre o abastecimento de gêneros alimentícios em Belo Horizonte Bolsonaro veste a pele do cordeiro, mas deixa o rabo de fora

Acompanhado em seu negacionismo apenas pelos chefes-de-Estado do Turcomenistão e da Nicarágua, criticado por seus próprios ministro, alvo de panelaços diários há mais de duas semanas, estigmatizado como pária global e vilão planetário, Jair Bolsonaro resolveu vestir a pele de cordeiro para tentar ensaiar uma conveniente mudança de posição.

Aprisionado em suas crenças lunáticas por conselhos de gente como o ex-ministro Osmar Terra e o astrólogo Olavo de Carvalho, o Presidente da República foi à televisão (que ele costuma deplorar) pela quarta vez consecutiva para exercitar sua ciclotimia. Com texto enclausurado numa gravação cheia de cortes, o ‘líder’ da extrema direita brasileira pareceu ter se rendido às evidências de que está diante de um desastre humanitário de proporções catastróficas.

Após haver declarado e reiterado inúmeras vezes que a COVID-19 é uma “gripezinha”, agora Bolsonaro classifica a pandemia como “o maior desafio” de sua geração, tomando emprestadas palavras de véspera de seu Comandante do Exército, General Edson Leal Pujol.
Mas a pele de cordeiro não escondeu todos atributos do lobo-capitão.

A ponta do rabo pôde ser vista claramente quando, no pronunciamento, ele voltou a adulterar palavras do diretor-geral da OMS com o objetivo de equipar vidas a negócios. Apropriando-se de uma parte do raciocínio de Tedros Ghebreyesus, Bolsonaro insistiu em um argumento que já havia sido desmentido duas vezes no dia anterior.

O que esperar dele agora?

Desde o dia 15 de março, quando entrou em guerra declarada contra a COVID-19, a versão brasileira do Cavaleiro da Má Figura vem apresentando uma ciclotimia dificílima de entender. Um dia antes de provocar aglomerações, de tocar o berrante convocando seu gado para ir ao abatedouro das manifestações golpistas contra o Congresso e o STF, Bolsonaro já havia reconhecido a gravidade da epidemia.

Mudou de ideia em 24 horas, colocando-se do lado oposto da lógica, da racionalidade, do bom-senso e até da compaixão. E depois mudou de ideia de novo, alternando ciclos com a mesma frequência com que expõe seus confusos pensamentos.

Osmar Terra, um anticientista clássico, forneceu os falsos argumentos necessários ao convencimento de uma mente que já estava convencida. Uma mente assolada por delírios inspirados pelo filhos e pelo tutor Olavo de Carvalho, os criadores de uma realidade que não encontra correspondência nos fatos.

Mas as evidências fornecidas pela factualidade acabaram se impondo. E ontem Bolsonaro vestiu a pele de cordeiro e foi falar na televisão. O rabo, no entanto, ficou de fora. E agora de manhã, a ovelha tentou abater uma gazela para o desjejum ao invés de sair para pastejar.

Ao tentar novamente fustigar os governadores, Bolsonaro lançou mão do velho estratagema de se utilizar de fake news.

No tuíte aí em cima, o Presidente espargiu sua crítica renitente aos governadores que desafiaram sua autoridade e passaram a desconhecer seu Poder. Mas a cornucópia da verdade jacobina verteu uma notícia falsa — a de que há desabastecimento na CEASA de Belo Horizonte.

A mentira foi desfeita minutos depois pela Rádio CBN, que foi até o local checar a situação e encontrou esse cenário aqui à esquerda. Além de não haver nada de desabastecimento, há uma inaudita abastança provocada pela queda na demanda.

Como se vê, a floresta cinzenta em que nosso Presidente quer nos meter há muitas gazelas que caçam, comem carne e têm caninos afiados.
Sempre que alguma delas surgir diante de si, procure olhar para o rabo. Se ali estiver uma cauda longa e preta, não é um cordeiro. É Bolsonaro mesmo!

Fabio Pannunzio

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