As ligações de entidades cristãs dos EUA com o governo Jair Bolsonaro vão muito além de uma agenda ideológica contra o aborto e a... Brasil recebeu milhões de dólares de entidades cristãs dos EUA contra aborto e LBGTI

As ligações de entidades cristãs dos EUA com o governo Jair Bolsonaro vão muito além de uma agenda ideológica contra o aborto e a comunidade LBGTI.

Segundo o correspondente da TV DEMOCRACIA em Genebra, na Suíça, Jamil Chade, com base nos dados da ONG OpenDemocracy, de 2007 até 2020, mais de US$ 280 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão) de 28 entidades, várias delas vinculadas ao governo do presidente americano, Donald Trump, foram aplicados em políticas antiaborto e contra os grupos LGBTI em todo o mundo.

Só na América Latina, foram destinados US$ 45 milhões em 10 anos.

Parte dos recursos veio para o Brasil, sendo que os maiores investimentos foram de instituições com relações com a advogada e pastora Damares Alves, a comandante do ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Ela confirmou ter recebido as perguntas de Jamil Chade, mas não as respondeu até às 10h desta quinta-feira (29).

Damares tem contato com algumas das instituições desde 2012.

Em 2019, nos EUA, como ministra, visitou duas organizações que aparecem na pesquisa como sendo as mais ativas nos investimentos globais.

Uma delas é a Heritage Foundation, que enviou US$ 3,3 bilhões para atividades multinacionais, e a Alliance Defending Freedom (ADF), com US$ 21 milhões, aproximadamente, US$ 1 milhão para a América Latina.

A OpenDemocracy não informou como os recursos foram utilizados em cada país e para onde foram destinados.

Tudo indica que o dinheiro foi usado para “influenciar leis, políticas e a opinião pública estrangeiras a fim de “provocar uma reação negativa contra os direitos sexuais e reprodutivos”.

As ações “pró-família” e “pró-vida” são centralizadas em três grandes grupos: antiaborto e pelo endurecimento da ação punitiva do aborto; contra as demandas LGBT e contra gênero ou “ideologia de gênero”.

Elas se refletem nas últimas legislaturas do Congresso.

“O ativismo de evangélicos contra tais agendas colocou as questões sexuais e a pauta identitária como elementos centrais do debate público”, afirmou o pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Dirceu André Gerardi, pós-doutorando em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP)

“Isso fortaleceu o ativismo de evangélicos conservadores contra políticas públicas de direitos humanos, a ponto da aliança com o governo Bolsonaro se caracterizar como a principal base social e eleitoral da direita cristã no Brasil”.

Gerardi explica que a lógica no Brasil é a mesma que nos EUA: entidades associadas à direita cristã —aqui as pentecostais como Assembleia de Deus e Igreja Universal— selecionam e apoiam, com a estrutura da igreja, candidatos a deputado pelo país. “Eles representam boa parte dos interesses dessas igrejas. Elas atuam como partidos políticos. Realizam barganhas com candidatos ao Executivo, negociam cargos no Legislativo e trocam apoio por ministérios”.

Em 2019, a secretária do ministério de Damares, Angela Vidal Gandra da Silva Martins discursou sobre a necessidade de proteger a família no Fórum Mundial da Family Watch Internacional.

Outra entidade citada na pesquisa é a American Center For Law and Justice (Centro Americano para o Direito e a Justiça), que tem como líder Jordan Sekulow, irmão de um dos advogados pessoais de Trump, Jay Sekulow.

Ele já veio ao Brasil, onde foi recebido pelo então vice-presidente Michel Temer e discursou para mais de 2 mil pastores da igreja liderada por Silas Malafaia.

Segundo a OpenDemocracy, além de não revelarem a origem e a destinação do dinheiro, os grupos estão registrados nos EUA como isentos de impostos e sem fins lucrativos.

Eles deveriam ser impedidos de participar de atividades político-partidárias, mas, na prática, agem livremente nestas áreas.

A entidade de Sekulow, por exemplo, apoiou publicamente a juíza ultraconservadora Amy Coney Barrett, nomeada esta semana para a Suprema Corte.

O dinheiro das organizações da direita cristã americana não se concentra na América Latina.

Em 2019, entidades, algumas delas com ligações com o governo Trump e o ex-assessor do presidente, Steve Bannon, teriam investido US$ 90 milhões na Europa ao longo de uma década.

A ACLJ atuou na Corte Europeia de Direitos Humanos contra o casamento gay, e na Polônia, defendeu a política do governo contra o divórcio e o aborto.

A África também foi beneficiada com um grande volume de dinheiro.

No mês passado, o ministério de Damares confirmou à Jamil Chade que “interage” com a ADF Internacional.

O governo brasileiro tem mantido contato com uma dessas entidades, a Alliance Defending Freedom (ADF International): “Os princípios compartilhados com a ADF, em geral, referem-se à defesa dos valores humanos”.

No site da organização americana, há um alerta para a existência de uma “indústria inteira que lucra com cada criança morta no útero” e apela para a sociedade “reconheça a dignidade humana dos bebês não nascidos” e que “proteção legal” deveria ser garantida a eles. “O aborto legal não protege as mulheres. O aborto certamente mata os bebês no útero, mas também pode levar à lesão ou à morte da mãe”.

Entre outras ações, a ADF financia advogados aliados em casos de aborto.

A Associação Nacional de Juristas Evangélicos estabeleceu uma parceira com a ADF. Por dois anos (2012 e 2013), uma das integrantes era a futura ministra, então advogada e pastora Damares Alves.

Em 2017, o senador americano Al Franken denunciou que a ADF seria um “grupo de ódio”, com base no mapeamento realizado pela Southern Poverty Law Center (SPLC), que monitora grupos extremistas nos EUA.

O ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos do Brasil rejeitou a acusação. “Até o momento, nas interações com a ADF, não identificamos nenhum posicionamento radical ou desrespeitoso para com qualquer segmento social. Por outro lado, o que visamos efetivamente, não é o ódio, mas o fortalecimento de vínculos familiares, cidadãos, sociais e internacionais com um profundo respeito ao pluralismo”.

Em 2019, a ADF recorreu à Suprema Corte americana para defender o sigilo dos doadores sem fins lucrativos. De acordo com a OpenDemocracy, entre os poucos financiadores conhecidos estão as fundações da família da secretária da Educação do governo Trump, Betsy DeVos.

No começo de outubro, o ministério de Damares ampliou seu escopo de influência ideológica para as universidades, com a oferta de 50 bolsas de mestrado e pós-doutorado para pesquisas sobre “família”.

“É um momento histórico, é a primeira vez que temos políticas públicas familiares”, comemorou a secretária nacional da família, Angela Gandra.

Segundo ela, iniciativas de “fortalecimento de vínculos familiares é algo inédito”, como se direitos das mulheres, das populações LGBTI e negra; e da infância não fizessem parte do que ela considera “família”.

Na semana passada, Damares e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, representaram o Brasil numa aliança liderada pelos EUA para combater qualquer referência à educação sexual ou à brechas para o aborto legal em fóruns multilaterais das Nações Unidas.

No ano passado, apoiado pela ADF Internacional, o Brasil denunciou a suposta perseguição contra cristãos em um evento patrocinado pela ONU.

A “cristofobia” foi citada no discurso de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2020.

As entidades fundamentalistas americanas também atuaram na defesa de Trump no processo de impeachment contra o presidente e na campanha de fake news sobre a pandemia do coronavírus.

Uma delas, que faz parte de um lobby anti-China com Steve Bannon, declarou que o vírus foi fabricado em um laboratório chinês.

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