A morte violenta de João Alberto Silveira Freitas em um supermercado Carrefour, na quinta-feira (19), em Porto Alegre, repercutiu até na Organização das Nações... Caso João Alberto repercute na ONU e na Bolsa de Valores de SP

A morte violenta de João Alberto Silveira Freitas em um supermercado Carrefour, na quinta-feira (19), em Porto Alegre, repercutiu até na Organização das Nações Unidas (ONU) e na Bolsa de Valores de São Paulo (B3).
Pelo quarto dia seguido, houve protestos na capital gaúcha.

Nesta segunda-feira (23), manifestantes saíram em passeata até o supermercado, que foi fechado às 16h por recomendação da Brigada Militar.

O protesto começou pacífico, mas terminou à noite com confronto entre alguns manifestantes e a polícia.

O Batalhão de Choque da Brigada Militar disparou tiros de balas de borracha e disse que ninguém foi ferido.

Em nota, o Carrefour declarou que vai doar os resultados das vendas do dia 20 de todas as lojas hipermercado do país para instituições que atuam no combate ao racismo.

Para isso criou um fundo de R$ 25 milhões.

A empresa disse que treinou equipes das lojas no sábado (21) e no domingo (22) para reforçar “os nossos compromissos com a diversidade e contra a intolerância e violência”.

O Carrefour também anunciou a criação de um comitê independente de diversidade formado por colaboradores e especialistas externos em inclusão racial.

O grupo terá o compromisso de criar ações em curto prazo para atuar “na revisão de processos do Carrefour e no combate ao racismo estrutural no Brasil. Acreditamos que, com isso, poderemos evoluir e contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva e tolerante”.

As ações do Carrefour despencaram 5,3% no pregão desta segunda-feira da B3 e o valor de mercado caiu R$ 2,1 bilhões.

O caso João Alberto repercutiu no Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, em Genebra, na Suíça, conforme relatou o correspondente da TV DEMOCRACIA, Jamil Chade.

Nesta terça-feira (24), a porta-voz da agência liderada pela ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, Ravina Shamdasani, criticou o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro e do vice Hamilton Mourão diante do racismo estrutural no país.

Sobre João Alberto, cidadão negro espancado até a morte por dois seguranças brancos, Shamdasani disse que “esse é um ato deplorável e que precisa ser condenado por todos. E quando falamos de todos, há uma responsabilidade especial dentro do governo e nas estruturas mais altas da liderança política para que tais condutas sejam reconhecidas e que sejam condenadas. O reconhecimento (do racismo) precisa ser o primeiro passo para trabalhar para resolver o problema”.

“Negros no Brasil sofreram todos os tipos de violência e injustiças. Negar o problema é perpetuá-lo. O importante, portanto, é que a liderança no mais alto escalão reconheça o problema e tome medidas para lidar com ele. Esse não é um novo problema no Brasil e tem décadas, profundamente enraizada. Há uma necessidade urgente de reformas da lei”, acrescentou.

A referência ao alto escalão do governo não é gratuita. O vice-presidente Hamilton Mourão declarou: “Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui”.

O presidente Jair Bolsonaro também não mostrou solidariedade à família de João Alberto.

No discurso que fez na reunião de cúpula do G-20, o grupo dos 20 países mais ricos do mundo, ele causou constrangimento ao dizer que enxerga todos de “verde de amarelo”.

“O Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. Somos um povo miscigenado. Foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo. Contudo, há quem queira destruí-la, e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’. Tudo em busca de poder”.

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos também pediu investigação “rápida, exaustiva, independente, imparcial e transparente” sobre o caso João Alberto e cobrou explicações por parte do Carrefour.

“Este ato deplorável, que tragicamente aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra no Brasil, deve ser condenado por todos. Os representantes governamentais têm a responsabilidade especial de reconhecer o problema subjacente ao racismo persistente no país, uma vez que este é o primeiro passo essencial para a sua resolução”, disse Ravina.

Para a ONU, não há dúvidas sobre o problema do racismo no país: “O racismo estrutural, a discriminação e a violência que as pessoas de origem africana enfrentam no Brasil são documentados por dados oficiais, o que indica que o número de vítimas afro-brasileiras de homicídio é desproporcionalmente superior ao de outros grupos. Os dados também mostram que os afro-brasileiros, incluindo mulheres, estão sobrerrepresentados na população prisional do país”, comentou a porta-voz.

Ravina afirmou que deve ser examinado “se o preconceito racial desempenhou um papel” na morte de João Alberto e que “este aspecto deve também ser tido em conta ao assegurar justiça e verdade, bem como reparação e reparação para a sua família”.

A agência também pediu que as autoridades “investiguem quaisquer alegações de uso desnecessário e desproporcionado da força contra pessoas que protestem pacificamente na sequência da morte de Silveira Freitas e responsabilizem os responsáveis”.

Ela declarou que “este caso e o escândalo generalizado que o mesmo provocou, realçam a necessidade urgente de as autoridades brasileiras combaterem o racismo e a discriminação racial em estreita coordenação com todos os grupos da sociedade, especialmente os mais afetados. O legado do passado ainda está presente na sociedade brasileira, como em outros países. Os brasileiros negros sofrem racismo estrutural e institucional, exclusão, marginalização e violência, com – em muitos casos – consequências letais. Os afro-brasileiros são excluídos e quase invisíveis das estruturas e instituições decisórias”.

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos sugeriu reformas urgentes das leis, instituições e políticas.

“Os estereótipos raciais profundamente enraizados, incluindo entre os funcionários da polícia e do sistema judicial, devem ser combatidos. As autoridades devem também intensificar a educação para os direitos humanos, a fim de promover uma melhor compreensão das causas profundas do racismo, e fazer um maior esforço para encorajar o respeito pela diversidade e o multiculturalismo, e fomentar um conhecimento mais profundo da cultura e história dos afro-brasileiros, bem como da sua contribuição para a sociedade brasileira”, defendeu Ravina.

Ela enfatizou que, além do Estado, as empresas também têm a responsabilidade de respeitar os direitos humanos em todas as suas operações e relações comerciais. “Esta responsabilidade exige que uma empresa efetue a devida diligência para prevenir, identificar e mitigar os riscos dos direitos humanos, incluindo na contratação de segurança privada”.

Ravina constatou que o Carrefour, que é membro do Pacto Global da ONU, já rescindiu o contrato com a empresa de segurança privada que atuava na loja de Porto Alegre.

No entanto, ela pediu explicações à empresa “se, e como, tinha avaliado os riscos de direitos humanos associados à contratação da empresa e que medidas tinha tomado para mitigar tais riscos, com vista a evitar uma tragédia como esta”.

Equipe TV Democracia

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