De Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris No Mundo Num Instante desde 21 de julho de 2020 vamos tentar entender um fenômeno... O Mundo num Instante: Derrubar estátuas para acabar com o racismo

De Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris

No Mundo Num Instante desde 21 de julho de 2020 vamos tentar entender um fenômeno atual: o racismo e a derrubada das estátuas após o assassinato do negro americano George Floyd.

O que essa revolta de dimensão planetária questiona é a “a concepção de vida subjacente à economia, à política e ao conjunto das relações humanas”.

Trata-se provavelmente de uma revolução cultural, como foi Maio de 68.

O que o movimento antirracista propõe é um despertar para a realidade da discriminação racial, tanto na sua forma violenta como insidiosa, e uma análise crítica ao passado de colonialismo e escravagismo.

Vamos começar citando o Brasil, onde Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Palmares, ele próprio negro, declarou não existir racismo. “Vamos acabar é ficando racistas com tanta manifestação anti-racismo.” Foi o que ele disse.

É difícil descortinar algum sentido nessas palavras.

Hoje, o mundo derruba estátuas em protesto contra a discriminação racial.

As estátuas são os maiores símbolos públicos da homenagem de uma comunidade ao seu passado.

Derrubar estátuas não é uma novidade. Foram derrubadas inúmeras na Europa no século XX — muitas de Stalin, por exemplo, que apesar de ter sido um criminoso genocida, vale a pena lembrar fez ao menos uma coisa boa na vida: o Exército Vermelho foi determinante para derrotar Hitler e o nazismo.

Derrubar as estátuas de Stalin não significou apagar a História, pelo contrário, nos fez ganhar consciência dela. A de que o líder soviético foi um genocida.

Para alguns, o debate atual é sobre estátuas e vandalismo, mas o verdadeiro debate incide sobre os mitos de uma identidade nacional, em que uma parte significativa da população não pode e não quer se ver espelhada. Prefere jogar a sujeira pra’ debaixo do tapete.

O movimento pela derrubada de estátuas nos Estados Unidos e no Reino Unido, só para citar dois países em que essa corrente é mais visível, misturam a guerra de Secessão com Cristóvão Colombo e Winston Churchill, como num samba do crioulo doido. Mas, no fundo esses movimentos também estão ajudando a América e a Grã-Bretanha a se confrontarem com a sua história.

Ao decidir retirar as estátuas dos confederados do Capitólio, a deputada democrata, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, trouxe a revolta das ruas provocada pela morte de Floyd para um patamar institucional. E isso é positivo. Talvez seja a primeira vez que a América se confronta com o seu racismo estrutural.

Há exageros? Sim, é absurdo retirar estátuas de Cristóvão Colombo, de Colbert, ministro da economia de Luis 14, autor do famigerado Código Negro que regulamentava a escravidão nas colônias francesas; do general De Gaulle, acusado de escravagismo, ou ainda apagar do catálogo da HBO o filme E o Vento Levou, como chegou a ser feito.

É bom lembrar que o filme data de 1939. Naquela altura, boa parte da Europa e da América branca era racista e antissemita.

Com relação à história do antissemitismo foi feito um trabalho de memória, por pressão da comunidade judaica e da consciência pesada do resto do mundo, que durante muito tempo fechou os olhos ao Holocausto. Com relação ao racismo anti-negro, o dia da memória ainda está por vir.

Não faz sentido esconder O Vento Levou, mas a decisão da HBO de retirar o filme de seu catálogo, pelo menos nos fez revisitar a película e lembrar que Hattie McDaniel (a Mammy negra do filme) não esteve presente na pré-estreia, e que, apesar de ter sido a primeira afro-americana a ganhar um Óscar, de melhor atriz coadjuvante, foi colocada numa mesa do fundo do Hotel Ambassador, enquanto os demais indicados, brancos, estavam sentados nas mesas principais, em frente.

Em seu discurso ao receber o prêmio, Hattie McDaniel disse: “Espero sinceramente que eu sempre honrarei os afro-americanos e a indústria cinematográfica. Obrigado, obrigado”; agradeceu chorando.

Durante a carreira, ela desempenhou 74 vezes o papel de empregada doméstica.

Há o risco de que esses movimentos desenvolvam estratégias pró-censura — a série da televisão britânica Little Britain, por exemplo, foi retirada do ar.

Assim como se tentou, há alguns anos, censurar a obra de Monteiro Lobato O Sítio do Picapau Amarelo, porque Tia Nastácia, negra, era cozinheira, tendo portanto uma posição subalterna. É tapar o sol com a peneira.

Derrubar estátuas pode ser uma forma de tomar consciência da História. Vamos derrubar todas as estátuas de colonialistas? Até as de Winston Churchill na Inglaterra? as de Dom Pedro 1° e 2° no Brasil?

Mais do que derrubar estátuas, é preciso tomar consciência de como a riqueza da Europa se forjou na exploração de outros continentes, de que a história dos europeus não é apenas a bela história do Iluminismo branco e da Declaração dos Direitos Humanos.

É também uma história de subjugação de povos e massacres. Isso poderá quem sabe nos ajudar a perceber melhor o passado para combater o racismo hoje.

O que o movimento antirracista propõe é um despertar para a realidade da discriminação e a necessidade de uma análise crítica do passado colonial, do escravagismo e de suas consequências sociais.

Não se trata de remover os monumentos, com os quais se quis santificar para sempre os conquistadores coloniais, nem muito menos se pretende vandalizar “obras de Arte”.

O que se quer é desconstruir a base ideológica do racismo, o discurso mentiroso sobre o carácter não racista dos americanos, britânicos ou brasileiros. Temos que derrubar o mito de que não há discriminação.

O racismo de hoje encontrou uma fonte de inspiração no sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, que desenvolveu o luso-tropicalismo para sustentar a sua visão do Brasil como país pós-racial. A narrativa da Casa Grande e Senzala, desse país pós-racial, é hoje uma das ameaças à vida democrática, sua ideologia é a da extrema-direita defensora da supremacia branca.

Não devemos nos envergonhar do fato de que muitos dos nossos ídolos eram menos “santos” do que pensávamos. O que nos deve envergonhar é a persistência do racismo e a negação, em nome do nacionalismo, de crimes contra a Humanidade, como a escravidão, a inquisição, o colonialismo, o genocídio indígena, as violações dos direitos humanos. É através de um estudo rigoroso do passado, de um trabalho de memória, que construiremos um futuro melhor.

Milton Blay

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