Aproveitei o longo isolamento provocado pela pandemia para fazer uma faxina nas minhas memórias. Fiz um esforço de introspecção atrás de fragmentos que o... Fábio Pannunzio confessa: “Eu também já fui crente um dia!”

Aproveitei o longo isolamento provocado pela pandemia para fazer uma faxina nas minhas memórias. Fiz um esforço de introspecção atrás de fragmentos que o tempo cuidou de desconectar e que pareciam não fazer nenhum sentido ao longo da minha existência.

Havia cacos de um tempo em que o ateu em que me transformei ainda estava na pupa. Impressões inexatas remanescentes de um período muito distante. Nunca tratei disso com ninguém depois de adulto – acho que por temer que a admissão de alguma crendice pretérita pudesse abalar minha reputação de ateu de carteirinha. Mas preciso admitir que já tive minhas superstições um dia.

Vou contar o que eu escondia. Em 1973 (acho), inventei um telefone com uma caixinha de madeira, dois interruptores, um alto-falante e uma campainha. Ele era muito simples e funcionava de verdade, e impressionou muito os jurados que o avaliaram na feira de ciências.

A ‘discagem’ era feita pressionando um interruptor de campainha. E o alto-falante fazia também as vezes de microfone, o que obrigava o usuário a alternar o transdutor entre a orelha e a boca. Ainda assim, ganhei o prêmio do meu colégio e  depois a da cidade de Uberlândia. E fui a Belo Horizonte representando a minha cidade na disputa do prêmio estadual. As lembranças do que aconteceu na véspera da divulgação do julgamento são vívidas e cristalinas.

Os alunos que tinham vindo do interior do estado foram acomodados em beliches num alojamento da UFMG. Eu estava exausto depois de um dia inteiro discorrendo sobre a invenção, explicando como funcionava para julgadores e curiosos, fazendo mil ligações para todos os que descriam daquela caixa de charutos cheia de fios. Tomei um banho e me aboletei na cama estreita, na parte de baixo do beliche.

No meu HD mental, a cena é a seguinte: Eu deitado de lado, mentalizando meu avô paterno, Afrânio, que morrera fazia pouco tempo. Peço a ele que me ajude a ganhar o prêmio. Suplico mesmo, para que ele possa entender a minha necessidade.

No dia seguinte, quando o resultado saiu e meu nome estava entre os premiados, não tive dúvida: meu avô me ajudara, e eu devia levar essa gratidão comigo por onde andasse.

Confesso que, mesmo em tempos em que já me lembro ateu, guardava essa cena como uma espécie de instância de recurso para amarguras, emergências e gravidades que eventualmente não tivesse como resolver. Devo ter lançado mão do estratagema mais duas ou três vezes na vida. E não me recordo de não ter sido atendido.

Nasci em um ambiente rico em crendices. Meu avô Afrânio era um homem devotado ao kardecismo. E n ao apenas a ele. Era um fazendeiro comunista, um dos chefes do Partidão em Minas Gerais. Era um sujeito muito bom e dadivoso. Foi um dos mecenas que ajudavam a pagar as contas da insurreição e da resistência.

Vô Afrânio tinha uma mente muito vulnerável a certas superstições. Sua bondade de vez em quando lhe fazia cruzar um pouco a fronteira da verdade estrita, resvalando para a crendice. Estatutos falsamente científicos não raro encontravam abrigo em sua mente fértil.

Confrei: panaceia amarga e tóxica

Foi por isto, imagino, que ele um dia chegou a Uberlândia com mudas de um novo vegetal que prometia ser a cura para tudo – do câncer à impotência sexual. Era uma planta parecida com um pé de fumo, sei lá, uma touceira rugosa e meio espinhenta, talvez um primo distante do ruibarbo.

Minha avó Joaninha (este era mesmo o nome dela!) plantou na horta, replicou e não tardou a fazer uma série de refogados, chás, vitaminas, linimentos e tinturas de confrei. Era amargo, horroroso, mas nós, meninos, tínhamos que tomar sem reclamar.

Foram meses e meses daquela dieta. A onda do confrei só terminou quando alguém chamou a atenção para o fato de que estudos recentes indicavam que a planta era tóxica, podia comprometer o fígado. Depois disso, nunca mais se falou sobre confrei na família.

Papai: broxante bravo!

A prova de que fake news já existem faz tempo é que o papaia foi banido do cardápio de todos os varões da família quando um dos meus tipos chegou do Rio de Janeiro com a informação de que aquele tipo de mamão provocava impotência sexual.

Uma dieta rica em papaia teria levado a população de uma ilha da polinésia à auto extinção pela renúncia à reprodução. O mamão, que conteria papaína em excesso, deixaria os homens broxados. Meu avô baixou portaria proibindo, para sempre, que a fruta fizesse parte do cardápio dos Freitas Azevedo. E assim foi.

Ele adorava ir para Guarapari com sua velha camionete C-10. Não tinha pressa nenhuma e, pelo que me lembro, isso era ótimo, pois ele era um motorista sofrível que, não obstante, nunca sofreu um acidente. Levava dias viajando os tortuosos mil quilômetros que separam Uberlândia da capital do Espírito Santo.

Na primeira dessas viagens, descobriu os milagres que a areia monazítica podia fazer para a vida humana. Alguém lhe disse que a radiação era boa para a saúde, podendo curar tudo, da calvície à impotência sexual (engraçado!, a cura da impotência estava sempre entre os milagres prometidos).

Vô Afrânio voltou a Guarapari algumas vezes para se deitar na praia das areias monazíticas. Não satisfeito em ter os efeitos medicinais só para si, decidiu compartilhá-los com toda a família. Encheu a carroceria da velha caminhonete com aquela areia radioativa e tomou o rumo de Uberlândia.

Minha avó Joaninha logo se pôs a produzir travesseiros de areia monazítica para os cinco filhos, 17 netos, irmão, tios, primos, cunhados e parentes, vizinhos e visitantes. Foram centenas de travesseirinhos sobre os quais dormimos boa parte da nossa infância.

Só muito tempo depois, quando os tais travesseiros atômicos já nem existiam mais, foi que alguém explicou que aquilo na verdade era um absurdo, que nós já deveríamos ter torrado toda a nossa tolerância à radioatividade dormindo sobre a areia ‘milagrosa’.

Ainda bem que essa história ficou esquecida por todo mundo desde que um dos tios, médico, finalmente admitiu que a prescrição da areia tinha sido mesmo um disparate. Um engraçadinho poderia dizer agora, sobre nossas habilidades cognitivas, que finalmente encontrou uma explicação: cérebro cozido!

Volto àquela cena em que eu estava contrito no alojamento da UFMG agradecendo ao espírito do meu avô a medalha de ouro na Feira de Ciência de Minas Gerais. A cena aconteceu em algum dia do ano de 1973, quando eu estava provavelmente com 12 anos de idade. A lembrança está viva na minha cabeça.

Ocorre que, ao dividir estas memórias com um contemporâneo, ele chamou minha atenção para um fato irreprochável. Meu avô Afrânio morreu uma semana antes do meu aniversário de 15 anos, em 1976. Portanto, ele estava bem vivo em 1973, três anos antes, quando eu ‘recorri’ ao seu espírito para ganhar a Feira de Ciências. Ou seja: não recorri a espírito algum porque o do meu avô querido ainda estava bem ocupado, preso ao corpo que teria que governar por muito tempo mais. A lembrança nítida era apenas uma pegadinha do meu cérebro.

Senti-me tomado por uma tristeza enorme ao perceber que por décadas guardara como segredo uma história supersticiosa, que não faz nenhum sentido simplesmente porque nunca aconteceu. Mas, admito, isso trouxe uma sensação muito ruim. É como se eu estivesse desonrando a graça que recebi ectoplasma do meu avô.

O desconforto só não é maior porque a quarentena e o isolamento também me permitiram lembrar de uma entrevista que fiz com o neurocientista Iván Izquierdo, uma das maiores autoridades do mundo sobre o funcionamento da memória.

Se bem me lembro, ele contou que a memória é, na verdade, um processo. Não é um registro exato da impressão que o gerou e muda com o tempo. A nossa dinâmica cerebral vai recontando contos e aumentando pontos, a ponto de você se lembrar exatamente do que não aconteceu e não poder se lembrar exatamente do que aconteceu.

Pode ser desalentador quando você faz as contas e se depara com hiatos terríveis come esse registro do recurso ao fantasma de alguém que eu amava, mas felizmente estava ainda vivo.

Mas pode também ser alentador, especialmente nos dias de hoje, na medida em que nos permite esquecer aquilo que é duro, triste, cruel ou dolorido.

 

Fabio Pannunzio

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