Meu pai morreu novo demais. Não chegou a completar 63 anos de idade. Era um sujeito excepcional e a gente lamenta muito não ter... Fábio Pannunzio: O dia em que eu roubei o carro e fugi para São Paulo sem lenço nem documento

Meu pai morreu novo demais. Não chegou a completar 63 anos de idade. Era um sujeito excepcional e a gente lamenta muito não ter podido conviver mais com ele na fase adulta das nossas vidas.

Ele poderia estar vivo agora se não tivesse sido levado por um câncer na próstata precoce, muito precoce. Teria agora 91 anos, completados no dia 5 de junho.

Era um cara muito bacana. Caladão, circunspecto, mas de uma solidariedade infinita. Ele estava sempre ali, ao lado, empurrando todo mundo para a frente.

José Gilberto Pannunzio nasceu em Sorocaba, aqui pertinho de São Paulo, um ano antes do pai dele falecer. Giotto, meu avô, foi um dos milhares de italianos que vieram tentar a sorte no Brasil no começo do século passado.

O nono era de Campobasso, de uma cidadezinha chamada Colletorto que você provavelmente jamais vai conhecer porque nunca vai turista lá. Movido pela curiosidade, uma vez fui conhecer o lugar. É um burgo charmoso e mínimo, que tem mais casas do que gente para ocupá-las.

Gosto de genealogia. Já perdi horas e horas tentando achar a origem nobre dos Pannunzio, mas não encontrei nada. Não eram nobres, não eram autoridades, nem padres, nada. Eram pobres por séculos. Por isto eu sou brasileiro. Eles vieram para cá correndo da fome e da miséria que assolaram a Itália entre o fim do Séc. XVIII e XIX. Encontrar o elo perdido dessa família tão desimportante na história da Itália não é fácil

O primeiro registro de um Pannunzio aparece justamente nessa torre de pedra que aparece ao fundo nesta foto aqui à esquerda. Um soldado que ficou preso ali e, provavelmente, não padeceu. Não sei como ele chegou nem que guerra guerreava.

Os Pannunzio já aparecem nos documentos históricos da cidade por volta de 1800, quando foi reformada a Terreta do Colletorto. E ajudaram a pagar a conta, pois deviam ser prósperos comerciante de azeite ou muçarela de búfala, que é tudo o que se produz por ali.

Na ausência de parentes, a única menção concreta à existência da minha família é um túmulo no cemitério local, onde foi enterrado um homem chamado Pardo Pannunzio. Na cidade, ninguém sabe exatamente quem foi esse Pardo – dizem os mais velhos que era um bom mecenas, mas ninguém conta como sabe disso.

Dou um salto adiante no tempo. Meu pai nasceu e cresceu entre Sorocaba e São Paulo. Era sócio de uma pequena retífica de motores e andava de Lambreta. Era bonito. E conheceu a minha mãe numa festa de noivado de uma prima dela, também sua melhor amiga.

Meu avô não deixou minha mãe fazer medicina. Para isso ele havia feito quatro varões que seriam encaminhados às artes da cura e da saúde, destino inexorável dos grandes homens – e assim foi. Quando mamãe passou no vestibular para letras no Mackenzie, a família toda se mudou para São Paulo.

Já contei outro dia que o Vô Afrânio era amigo dos maiores líderes da esquerda nos anos 50. Ele mesmo chegou a ser deputado federal por Goiás em 46 pelo PCB, devidamente cassado em 1948. Como era muito rico, era também um dos mais generosos mecenas do Partidão.

O apartamento, num prédio com varanda da rua Amaral Gurgel, onde depois Maluf construiria aquele Minhocão horroroso, era frequentado pela elite comunista brasileira. O “aparelho”, no entanto, era mero disfarce de uma família conservadora do interior de Minas Gerais que se mudou para São Paulo para vigiar a filha universitária.

Só que não deu certo!

Uma tia chamada Celina ficou noiva. Noiva do sócio do meu pai, que o convidou para a festa de gala. Meu pai tinha uma noiva que, ao que tudo indica, não foi a essa festa. Mas minha mãe estava lá, linda e faceira, e cheia de sorrisos para o homem que viria a ser meu progenitor.

Casaram-se em 1959. Papai vendeu a sociedade na retifica e se mudou para Uberlândia. Meu avô deu um pedaço de terra que ele adotou como se fosse sua, mas sempre tratou como se fosse da minha mãe.

Sua primeira tentativa de se tornar um autêntico fazendeiro terminou mal. Ninguém criava porcos em Uberlândia. Mas ele, que não entendia nada nem de Uberlândia, nem de porcos, decidiu que iria fazer justamente porque ninguém fazia. Importou porcos de raça para começar o plantel. Mas logo as matrizes foram contaminadas pela peste suína e morreram às centenas. Os que não tiveram a sorte de padecer pela doença terminaram por ser abatidos para conter a epizootia.

Sem dinheiro e sem ter por onde recomeçar, papai foi vendedor de peças para os tratores que escavavam canais e construíam diques das grandes hidrelétricas que a ditadura militar brasileira ia plantando nos rios Grande e Paranaíba. Hoje elas ainda geram 70% de toda a energia produzida no Sudeste brasileiro. Toda vez eu passo por ali, lembro com orgulho que meu pai ajudou a construir aquelas represas gigantes na divisa de Minas, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul.

A vida, no entanto, era modesta e digna. Konga, Kichute, Camisa volta ao Mundo, Grupo Escolar Bom Jesus e Banlon no inverno. Cada um tinha o seu.

No intervalo entre uma viagem e outra, meu pai e minha mãe costumavam sempre providenciar mais um herdeiro. Somos cinco irmãos, uma escadinha com intervalo anual quase perfeito (mas o Pedro Paulo e o Eduardo nasceram com 11 meses de diferença, o que me faz suspeitar que ‘Seo’ Gilberto e  Dona Martha não esperaram nem o caldo de galinha terminar para encerrar a quarentena).

A família sempre almoçava ao redor de uma mesa enorme. A casa tinha empregados, mas não tenho na cabeça a lembrança de minha mãe sentada junto conosco. Ela estava sempre no fogão passando os bifes ou fritando os ovos.

Papai tinha um jeito todo dele de fazer o prato. Era um ritual. Ele colocava primeiro o feijão, amassava e depois recobria com arroz. O bife era sempre de contrafilé, frito com um pouquinho de açúcar para caramelizar. Ele sempre cortava o bife todo de uma vez só — primeiro cortes na vertical, depois na vertical, resultando em pedaços geometricamente perfeitos.

Ele Gostava de almeirão, que todos nós detestávamos por causa do sabor amargo. Hoje, toda vez que vejo almeirão no mercado, compro logo para sentir na boca o gosto daqueles almoços. E nos domingos na casa da cidade, que foram poucos porque a gente sempre ia para a fazenda, ele cozinhava seu prato único, macarrão com molho de camarão sete barbas, aquele pequenininho.

O velho Gilberto deu um duro danado para criar os filhos. Trabalhou feito um mouro. Depois dos repostos da Catterpillar, foi vender sal e virou representante de algumas marcas junto aos atacadistas de Uberlândia.

Enquanto isso, minha mãe, que meu avô e meus tios impediram de fazer medicina porque era coisa de homem, assumiu o protagonista da família. Intelectual reputada, produziu em 1976 sua obra-prima (prima no sentido de ser a melhor ever, mas também sua primeira obra literária), ‘Veludinho’, que ganhou todos os prêmios nacionais de naquele ano.

Ela seguiu escrevendo até que a cidade resolveu torná-la candidata a vereadora. Meu pai era o homem por trás daquela grande mulher. Ele providenciava os santinhos, organizava as reuniões, os comícios, cuidava da burocracia do partido. Montou para ela um caminhão-palanque. E lhe deu três mandatos consecutivos, que a morte dele terminou por interromper.

Minha mãe era o seu objetivo. Ele se realizava nela. E ela se realizava na sua proeminência intelectual e política. Se tivesse tido outro marido, com certeza teria ficado nos bifes e na fritura dos ovos.

Mas as coisas não foram totalmente perfeitas, óbvio. O domingo de Páscoa de 1978, por exemplo, foi um inferno. Eles vinham brigando muito por terem concepções muito diferentes de como os filhos tinham que ser tratados.

Meu pai se irritava com as chineladas que Dona Martha distribuía diariamente. O alvo era quase sempre eu, o mais irrequieto dos cinco filhos. E eu era uma peste mesmo. Minha mãe me batia, meu pai me defendia.

Naquele domingo de Páscoa, eles nos reuniram de forma solene – isso nunca acontecia na minha família, onde todos os assuntos eram resolvidos durante as refeições. Logo depois do almoço, comunicaram que estavam se separando. A causa, minha mãe disse, era o meu comportamento e a mania que meu pai tinha de sair em minha defesa.

Eu tinha 17 anos de idade. Nas cidades do interior, os filhos de família de classe média começavam a dirigir aos 12. Pedi o carro emprestado naquela noite para ir ver a namorada, Cacau, uma morena linda que chegou dos Estados Unidos.

Cacau é filha do finado Comandante Gilberto Araújo da Silva, da Varig. Quatro anos antes ele havia pousado com um Boeing 707 em chamas num campo de cebolas próximo a Paris.

Isso fez dele um herói, e eu tinha muito orgulho daquele sogro que morreria no ano seguinte, em 1979, num avião que desapareceu misteriosamente entre Tóquio e Los Angeles. Mas nós, claro não sabíamos disso. Ainda bem.

Mocinhas do interior viravam abóbora às dez horas da noite, quando os namorados, noivos e maridos, aproveitando a falta do que fazer, iam se encontrar nos bordéis de Uberlândia. Era para onde eu deveria ter ido encontrar meus primos. Mas não naquele dia, porque eu estava aborrecido demais com a história do divórcio anunciado horas antes.

Dirigi o carro até o trevo da BR-050 e entrei na rodovia. Queria raciocinar um pouco, pensar em como eu fora capaz de arruinar um casamento como o dos meus pais. 50 quilômetros adiante passei pelo posto Cinquentão sem vontade de fazer meia-volta. Depois, Uberaba, o Delta do Rio Grande, a Curva do S, Orlândia…. Ribeirão Preto.

No meu bolso havia 17 cruzeiros, cruzados, cruzeiros novos, sei lá, o suficiente para comprar o ovo de páscoa Imperial que queria dar para a Cacau, mas acabei esquecendo de comprar. Foi com esse dinheiro que abasteci o carro em Americana e acabei de chegar em São Paulo no alvorecer.

Não havia GPS. Eu não tinha um guia, que era caro demais. Perguntando, perguntando, fui parar na Vila Alpina, quando deveria ter ido para a Liberdade. Demorei meia manhã para achar o caminho, o combustível no osso.

Meu destino era o Curso Anglo Latino, onde estudavam meus primos. Eles ficaram apavorados com o meu gesto de loucura e me levaram para a casa da Moema, uma prima mais velha muito acolhedora que certamente saberia como resolver aquela situação.

Em Uberlândia, meu pai e minha mãe já estavam apavorados com o meu desaparecimento quando o telefone tocou. Só entendi a gravidade do meu comportamento quando Salé, marido da prima Moema, disse, pálido, que meu pai fretaria um avião e viria a São Paulo para me levar de volta. E eu que me preparasse para enfrentar a ira divina.

Quando chegou, à tarde, papai não berrou, não brigou, não me repreendeu. Perguntou apenas como tinha sido a viagem e disse, com doçura, que a gente precisava se apressar porque senão viajaríamos muito tempo à noite. Coisas de pai que não teve um pai para dar aquele carinhos em estado bruto com que me repreendida sem dar broca nenhuma.

Ele me deixou vir dirigindo para ver o que eu havia aprendido no meu primeiro périplo por uma rodovia. Nunca mais fiz nada parecido. A ausência da punição me feriu muito mais do que a surra que, em outras circunstâncias, eu teria merecido.

É claro que minha mãe ficou muito brava comigo, a ponto de passar alguns dias sem me dirigir a palavra. Mas as coisas entre ela e meu pai foram se ajeitando até aquela ideia do divórcio ser arquivada num canto pouco frequentado da nossa memória.

Estou escrevendo tudo isto porque hoje, cinco de julho, é o aniversário de casamento dele e de minha mãe. E todo dia 5 de julho é uma tristeza. Ainda que sejam quase 30 anos de ausência, a gente não se conformou com a partida precoce de um homem tão bom e generoso.

Minha mãe lembrou no Twitter que eles fariam 61 anos de casados. Quando ficou viúva, ela era seis anos mais nova do que eu sou hoje. E nunca mais se aproximou de nenhum outro homem. A despeito do Seo Gilberto ter partido deixando-a tão jovem e bonita, ela ainda continua casada com ele até hoje.

Hoje finalmente, mamãe tirou esse episódio do fundo da memória e me perdoou. Disse “muito obrigada, filho! Será que eu teria mesmo coragem de sair de casa?”

Aposto que não!

Fabio Pannunzio

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