Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris Será ainda possível construir uma resposta global à Covid-19, às suas consequências sociais e, ao... Mundo num Instante: Crise provocada pela Covid-19 é estímulo para a cooperação internacional

Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris

Será ainda possível construir uma resposta global à Covid-19, às suas consequências sociais e, ao mesmo tempo, prevenir a catástrofe ecológica?

Na tragédia da Covid, descobrimos ou redescobrimos que o mundo é global além das mercadorias e das finanças, que o multilateralismo é frágil e que Donald Trump, Bolsonaro e asseclas os querem jogar no lixo do obscurantismo.

Os filmes de ficção científica mostravam que o mundo, para se unir, precisaria de uma “invasão de alienígenas”; tal qual imaginou Orson Welles, ao provocar um pânico em Nova Iorque, em 1938, ao teatralizar A Guerra dos Mundos num programa de rádio.

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O Conselho de Segurança das Nações Unidas, paralisado pela rivalidade sino-americana, com a Rússia colocando seu grão de areia, não assumiu as suas responsabilidades, nem tampouco aprovou a resolução elaborada pela França e pela Tunísia, de apoio ao apelo do secretário-geral da Organização das Nações Unidas  (ONU), Antonio Guterres para um cessar-fogo mundial, de modo a permitir o acesso de ajuda médica aos países em guerra.

A crise do multilateralismo é consequência da regressão da democracia liberal. Vejam só: dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança — Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França — só a França não tem um governo nacionalista ou autocrático.

A Índia e o Brasil, candidatos a membros permanentes, são governados por extremistas. E o que a primeira potência mundial tem a oferecer? Os Estados Unidos do New Deal e do Plano Marshall, as duas grandes referências no combate às crises sociais globais, têm agora para oferecer ao mundo apenas uma proposta suicida.

Como sempre estamos numa encruzilhada: os otimistas consideram que os desafios acabarão por impor uma nova era de cooperação internacional, como aconteceu no passado, lembrando que as Nações Unidas e a Comunidade Europeia surgiram da II Guerra Mundial.

Poderíamos lembrar a erradicação da varíola, que no século XX matou mais de 300 milhões de pessoas. Graças às campanhas de vacinação lançadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1966 foi possível erradicar a doença.

Em 2001, perante o alastrar da epidemia da aids, a Organização Mundial do Comércio (OMC) decidiu em Doha, com um papel ativo do Brasil, que os governos podiam decidir a venda a preços mais baixos de “genéricos” para protegerem a saúde dos seus cidadãos, apesar de as patentes pertencerem a laboratórios privados.

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A tripla crise que enfrentamos – sanitária, social e ecológica – é um estímulo ou ao menos um forte apelo à cooperação internacional.

As forças progressistas têm a obrigação de propor um acordo global para fundar um Novo Pacto Verde e de Saúde (Global Green and Health New Deal), inspirado no debate americano, por congressistas como Alexandria Ocasio-Cortez.

Um pacto que se articule em torno de três grandes temas globais: saúde, para prevenir pandemias e garantir que todas as regiões do mundo, sem discriminação, tenham acesso a medicamentos e vacinas; economia, em resposta à recessão para prevenir a miséria e a fome; meio-ambiente, na promoção de uma economia verde, sustentada num quadro legal que proteja o sistema terrestre.

É um projeto de bom senso, que aliás já foi proposto, embora em vão e sem a componente da saúde, na resposta à crise financeira de 2008, em relatórios para as Nações Unidas e livros como o Global Green New Deal, de Edward Barbier.

O imperativo então, como hoje, era impedir que os bilhões a serem investidos nas economias para enfrentar a recessão servissem para financiar uma economia carbonizada que agravasse a crise ecológica e a especulação financeira.

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A União Europeia (UE) é a entidade indicada para propor nas Nações Unidas e no G20 esse Novo Pacto Global Verde e de Saúde. Se o fizer, encontrará apoio nos cidadãos do mundo inteiro, incluindo americanos e brasileiros.

Trump não é um obstáculo intransponível. A sua virulência não tem impedido a cooperação internacional face à pandemia, como mostra a resolução da Assembleia Geral da ONU ou a conferência mundial, de 24 de Abril, convocada pela OMS, França, UE e Fundação Bill e Melinda Gates, em que os participantes se comprometeram a garantir que qualquer tratamento contra a  Covid-19 será acessível a todos.

A UE e as suas democracias liberais podem ser decisivas na configuração do mundo pós-Covid-19, mas para isso precisam responder às consequências da crise sanitária com um projeto que transforme radicalmente a economia e a política.

O Pacto Verde europeu não tem nem metade dos recursos necessários e a proposta de orçamento da UE para 2021-2027 não ultrapassa 1,074% do produto dos Estados-membros. O novo pacto verde deve ser o plano de reconstrução europeia pós-pandemia, todavia, para corresponder às necessidades o orçamento da União, deve ser dobrado.

Alvaro Vasconcelos, um grande analista político português, considera que  regresso à vida na Terra, sem a ameaça mortal das pandemias, da miséria, da desigualdade e do aquecimento global é possível. Porém, para tanto, é preciso romper com o modelo de desenvolvimento neoliberal que nos trouxe à distopia em que vivemos, substituindo-o por um mais justo e fraterno.

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Seria bom que muitos dos europeus que se indignam (e com razão) por serem transformados num vírus estrangeiro por Trump, encontrassem tempo para pensar nos que são reprimidos nas fronteiras da Europa, nos que veem os barcos das suas odisseias a serem destruídos nas águas que foram de Ulisses, o primeiro dos exilados.

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Lamartine, uma das grandes figuras do romantismo francês, dizia: O egoísmo e o ódio têm uma só pátria; a fraternidade não a tem.

O coronavírus é um teste à nossa humanidade. Será que, no meio da angústia de podermos ser contaminados ou de vermos os mais queridos afetados, seremos capazes de olhar para os outros como parte da mesma humanidade? E será que além de pensarmos no nosso problema, teremos tempo para nos comover com a sorte dos refugiados que vão desaparecendo das páginas dos jornais?

A Europa não está, nenhum continente tampouco, imune ao vírus da desumanidade, ao medo do outro visto como portador do mal.

Os refugiados tratados como inimigos na fronteira da Grécia com a Turquia, o apoio que o governo de Atenas recebeu das instituições da UE, a criação pela Grécia de um Guantánamo para refugiados — um centro de detenção onde o direito não se aplica —, como denuncia uma reportagem do New York Times, são também sintomas da banalização do mal.

Como não nos lembrarmos neste tempo de angústia do romance de Camus, A Peste, sobre uma epidemia mortífera que contamina a cidade argelina de Orã? A cidade é fechada e campos de quarentena são erigidos. O herói do livro, o médico Rieux, luta contra a epidemia ao mesmo tempo que afirma os valores da solidariedade e da humanidade comum, denunciando os que passaram a ver “o outro” como o mal, a ameaça, o “estrangeiro” a abater. Para Rieux, a resistência e a indignação são a forma de aproximar os seres humanos e de fazer emergir o “que têm em comum: o amor, o sofrimento e o exílio”.

Escrita em plena II Guerra Mundial, esta obra é também uma alegoria à resistência contra a peste do fascismo que tanta gente contaminou.

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No final de  A Peste, o médico, personagem central, alerta, em plena festa de comemoração da vitória sobre a epidemia, para outras que virão, e para a necessidade de se estar preparado. Ele conclui: “há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar”.

Hoje, quando vemos a abnegação de tantos no combate à pandemia, e que no meio do medo se erguem vozes em defesa dos refugiados, da preservação do meio ambiente, podemos dizer que está aí o futuro.

Mas que ninguém se engane, a inquietação com um mundo que pode num abrir e fechar de olhos ser hostil, incapaz de nos garantir os direitos fundamentais, incluindo a saúde, continuará a ser uma das grandes angústias do século XXI.

No século XX, os grandes cenários apocalípticos eram os da guerra. Depois da II Guerra Mundial, o cinema enchia as salas com o terror da hecatombe do inverno nuclear, como no telefilme americano O Dia Seguinte de Nicholas Meyer.

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Hoje, os cenários apocalípticos já não são os da ficção científica, mas os que acompanhamos pelas televisões e pelas redes sociais ao vivo, com mais ou menos sensacionalismo: tragédias humanitárias, catástrofes naturais, tragédias ambientais e pandemias.

Na altura em que os cidadãos e os seus governos tentam combater a pandemia, em que a nossa atenção se concentra nas medidas sanitárias, não seria mal pensarmos no que serão as democracias para além da crise, por mais longa que ela seja.

Se o mundo se auto-destruir não será porque o coronavírus provocou uma nova crise financeira, mas porque perdeu um dos valores fundamentais: o da fraternidade.O que será decisivo para o nosso futuro será a nossa capacidade para preservar a humanidade, de sermos gente.

Eu os deixo na companhia de 1812, de Tchaikovsky.

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Milton Blay

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