Por Milton Blay, correspondente da TV DEMOCRACIA em Paris Dias atrás recebi um artigo de um jornalista brasileiro-israelense festejando os acordos para a normalização... Mundo Num Instante:  A verdade por trás dos acordos de paz entre Israel, Bahrein e Emirados Árabes

Por Milton Blay, correspondente da TV DEMOCRACIA em Paris

Dias atrás recebi um artigo de um jornalista brasileiro-israelense festejando os acordos para a normalização das relações entre Emirados Árabes, Bahrein e Israel, sob a égide dos Estados Unidos.

Ele dizia: pensem o que quiserem, a verdade é que nos últimos 25 dias Trump fez mais pela paz no Oriente Médio que todos os outros presidentes americanos em décadas.

Será mesmo? vamos aos fatos:

Os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein assinaram nesta terça, dia 15 de setembro, na Casa Branca, em Washington, um acordo para normalizar relações diplomáticas com Israel, tornando-se assim o terceiro e o quarto países árabes a reconhecer o Estado judaico, junto com Egito e Jordânia.

O acordo foi mediado pelo governo de Donald Trump, que busca uma vitória na política externa para aumentar as chances de reeleição nas eleições presidenciais dos EUA em novembro.

O apoio a Israel é uma posição popular entre eleitores evangélicos.

“Estamos aqui para fazer história. Esse é um grande passo para que pessoas de todos os credos e origens possam viver juntas em paz e prosperidade. Eles vão trabalhar juntos, porque agora são amigos; disse Trump na sacada da Casa Branca, decorada com bandeiras de EUA, Israel, Emirados Árabes e Bahrein”.

Claro que a História, com H maiúsculo, se conta em diferentes versões e frequentemente os fatos não correspondem à realidade.

Infelizmente é o caso.

A própria cerimônia de assinatura mostrou a dimensão do acordo.

Os Emirados Árabes e Bahrein estiveram representados por seus chanceleres e não por seus dirigentes de fato, Zayed Bin Sultan Al Nahyan e o Rei Hamad bin Isa al-Khalifa, do Bahrein.

A única personalidade de primeiro plano presente era o primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu, no papel de fantoche de Donald Trump, seu amigo.

O toque de ironia veio do coronavirus, na medida em que não pode haver o simbólico aperto de mãos.

https://drive.google.com/file/d/1vdSMGyVvEm2wQaYSfhrpjg_xEifngVEj/view?usp=sharing

A segunda razão que explica a relativa desimportância do acordo é o fato de que Bahrein e Emirados são países do Golfo sem peso geopolítico.

Quem conta de fato é a Arábia Saudita, verdadeira força regional, que apesar de sofrer pressão de Washington para reconhecer Israel, tem resistido, dizendo “não estar pronta” para adotar a medida.

O que é uma meia-verdade. O príncipe saudita já disse tempos atrás que Israel tinha o direito de viver em paz com seus vizinhos árabes. E como se não bastasse, os sauditas permitiram que o voo que levava a delegação de Israel aos Emirados Árabes para negociações passasse pelo espaço aéreo do país.

Foi a primeira vez na história que uma aeronave israelense sobrevoou a Arábia Saudita.

A resistência da monarquia a reconhecer Israel deve-se ao seu papel como sede das cidades sagradas do Islã, sobretudo a Meca. O mundo muçulmano ainda não está pronto para reconhecer oficialmente Israel, em razão sobretudo da luta fraticida entre xiitas e sunitas.

Assim, como disse Zaha Hassan, especialista do Fundo Carnegie para a Paz Internacional: “O Bahrein foi um prêmio de consolação oferecido aos EUA pela Arábia Saudita.

A terceira razão que não nos leva a festejar o acordo é que ele não traz necessariamente a paz. Pelo contrário.

O Irã classificou a assinatura dos acordos como uma “grande traição das causas palestina e islâmica”.

O tratado tem como pano de fundo, a rivalidade entre a Arábia Saudita e  o Irã, que travam guerras por procuração com Israel, na Síria e com a coalizão de países árabes liderados pelos sauditas no Iêmen.

Foi altamente simbólico o ataque com mísseis lançados pelo Hamas contra o norte de Israel no momento da assinatura dos acordos. Tanto o Hamas, na Faixa de Gaza, como o Hezbollah, no Líbano, são financiados por Teerã.

Além dos persas, saem perdendo os palestinos, cujo tratamento por parte de Israel sempre foi um obstáculo na relação com países do Oriente Médio.

A única concessão que Netanyahu ofereceu ao anunciar o tratado com os Emirados Árabes foi suspender os planos de anexação de territórios palestinos, sem contudo abandoná-los por completo.

Já o acordo com o Bahrein não teve nenhuma contrapartida relacionada à Palestina.

Até pouco tempo, o consenso na região era de que relações diplomáticas com Israel só seriam estabelecidas após a criação de um Estado palestino.

Trump disse à TV Fox News que o acordo vai forçar os palestinos a negociarem, pois, caso contrário, serão “deixados de lado”. Oras, os palestinos já foram deixados de lado há muito tempo, tanto pelo governo israelense quanto pelos países árabes.

O acordo não trará mais paz tampouco para Israel, mesmo porque Bahrein e Emirados não estavam mais em guerra contra Tel Aviv.

Ontem, a prefeitura de Tel Aviv projetou em sua fachada a palavra “paz” em hebraico, árabe e inglês: shalom, salam, peace.  

https://twitter.com/i/status/1305909007887077379

Enquanto isso, na Faixa de Gaza os palestinos entoavam palavras de ordem como “a Palestina não está à venda”. O problema é que ninguém quer comprar.

Aqui, a música abre espaço para a paz. A West-Eastern Divan Orchestra que interpreta o Triplo concerto de Beethoven, foi formada com músicos palestinos e israelenses, que dialogam em acordes.  Yo-Yo Ma, Anne Sophie Mutter e Daniel Barenboim são os solistas.

https://drive.google.com/file/d/18J8jSdrnX4iYxjKwIXpxtLJPYk4cdA_y/view?usp=sharing

Milton Blay

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