Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris No seu polêmico livro 1421 – O Ano em que a China Descobriu o Mundo, Gavin...

Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris

No seu polêmico livro 1421 – O Ano em que a China Descobriu o Mundo, Gavin Menzies relata a história de uma odisseia extraordinária, que começou no dia 8 de março de 1421. Naquele dia, a maior frota do mundo teria partido da China rumo ao oceano Índico, tendo como missão a chegada aos “confins da terra para receber tributo dos bárbaros além-mar e unir o mundo na harmonia professada por Confúcio”.

https://drive.google.com/file/d/1pnZLjw_EOTBqC_bams2eavHxoV0ACP84/view?usp=sharing

https://drive.google.com/file/d/1uJCKo3M-xRbQyeu9vxOA-fUs5o3E8lSd/view?usp=sharing

Gavin Menzies, do sucesso 1421, também publicou 1434: O ano em que uma grande frota chinesa velejou para a Itália e deu início ao Renascimento. Dessa vez, o autor apresentou novas evidências que ligam as raízes do Renascimento europeu às explorações chinesas do século XV.

Dentre elas a arte, a geografia, a astronomia, a matemática, a impressão, a arquitetura, a siderurgia e o armamento militar. E será que essa influência se espalhou pela Europa e deu início à lendária inventividade do Renascimento, inclusive à genialidade de Da Vinci, Copérnico, Galileu e muitos outros? Realidade ou mera ficção?

https://drive.google.com/file/d/1RX3_BbQZWhuOu22ar0_DL-aDyk-h6116/view?usp=sharing

De qualquer maneira, uma coisa é certa: naquela época a China mostrava que o seu futuro estava traçado, se projetar para o mundo.

Se os sinais econômicos são hoje muito claros relativamente à ascensão da China enquanto potência mundial, existem outros sinais, menos visíveis, que permitem reforçar essa perspectiva.

Vem a propósito a pandemia, o mais recente acontecimento que paralisa o mundo e que promete alterar de forma substancial o funcionamento da economia mundial e o equilíbrio geopolítico existente.

A atual crise sanitária com consequências econômicas severas parece ter acelerado um processo em curso há alguns anos e que se materializa na consolidação da China como segunda grande potência mundial, relegando a Europa de “cabelos grisalhos” para o terceiro lugar do pódio. Pequim não esconde que o seu objetivo é ocupar o primeiro lugar.

A ascensão da China enquanto grande potência mundial começou com Deng Xiaoping, em 1978, e teve um forte impulso a partir de 1984 quando, a respeito de Hong Kong, propôs a Margaret Thatcher o princípio de “um país, dois sistemas”, finalmente aceito pela comunidade internacional.

Essa ascensão é visível em vários níveis, destacando-se, a titulo de exemplo, duas áreas: Produto Interno Bruto (PIB) e Comércio Mundial.

Relativamente ao PIB per capita, a evolução da economia chinesa foi significativa.

https://drive.google.com/file/d/1Mhawek4M1dekV1JNWmOnEtGbLqQFIvi6/view?usp=sharing

 

Em 1960, o PIB per capita chinês (em US$) representava 3% do PIB per capita norte-americano e 8,8% do PIB per capita dos países da União Europeia (UE).

Em 2018 em 15,6% (27,4% face à UE). Ou seja, em meio século o PIB per capita da China cresceu 5 vezes com relação ao dos Estados Unidos.

Em termos absolutos, é claro, a importância da China no PIB mundial tem crescido de forma significativa, ainda mais impressionante.

https://drive.google.com/file/d/1BbOE8Z6KQPN2mFXrYjs0Y8OTsy40HNss/view?usp=sharing

Na realidade, se em 2014 o peso da economia chinesa era de 16,5%, em 2019 esse valor atingiu os 19,2%. Em sentido inverso, a UE e os EUA, que representavam, em conjunto, cerca de 32,8% do PIB em 2014, passaram a representar cerca de 31,2% em 2019.

Face às perspectivas de evolução do PIB destas economias nos próximos anos, traduzida numa estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI), a China representará mais de 23% do PIB mundial no final de 2021.

No que diz respeito ao comércio mundial, os dados também são muito claros. Assim, se a China representava 11,8% das exportações mundiais em 2008, esse valor atingiu os 16,2% em 2019.

Os sinais econômicos são hoje muito claros relativamente à ascensão da China enquanto potência mundial, mas existem outros sinais, menos visíveis, que permitem reforçar essa perspectiva.

https://drive.google.com/file/d/1nucBDpSd-0rCpl0JHSKD8uBJ9-mTlqTW/view?usp=sharing

Dentre esses sinais, destaca-se a estratégia conhecida como « One Belt, One Road” (OBOR), anunciada em 2013 e que visa restabelecer as rotas comerciais que ligam a China, a Ásia Central, a Europa e ainda a África (a célebre “rota da seda”), procurando ligar um espaço geográfico que inclui mais de 60 países, na sua maioria em desenvolvimento, 60% da população mundial e um terço do PIB mundial.

Esta estratégia, designada por alguns como uma espécie de “Plano Marshall”, tem um claro interesse diplomático subjacente, o qual, aparentemente, já está dando resultados.

Quatro das 15 agências especializadas da Organização das Nações Unidas (ONU) são atualmente dirigidas por responsáveis chineses, traduzindo assim a importância que a China passou a ter no quadro das organizações multilaterais internacionais.

https://drive.google.com/file/d/1OZAbSkAJADKrekAuKjog4OOIctDDgiuk/view?usp=sharing

A crise pandêmica foi um poderoso acelerador da crescente desconfiança europeia em relação à nova superpotência asiática. A Europa começou a acordar bruscamente para o seu enorme déficit de material sanitário e para a dependência da China para adquirí-lo. Jurou que isso não voltaria a acontecer.

A propaganda e a desinformação das embaixadas chinesas sobre a incapacidade dos governos europeus para enfrentar a pandemia foi particularmente ofensiva. Depois, houve Hong-Kong e continua a haver a denúncia cada vez mais incontornável da repressão violenta praticada pelas autoridades chinesas contra a minoria uigure de Xianjiang.  “A máscara made in China que usamos pode ter sido feita por trabalho escravo uigure”.

No mundo anterior à pandemia, houve parcerias assinadas, sobretudo com os países da Europa Central e de Leste, mas também do Sul, mais fustigados pela Grande Recessão. Pequim aproveitou com rapidez a oportunidade.

Mas tudo isto foi ontem. Quase tudo mudou. A Europa quer “regionalizar” as cadeias de abastecimento de que depende. Criou mecanismos novos para escrutinar o investimento chinês em setores estratégicos. Exige reciprocidade nas relações comerciais entre os dois lados. Olha hoje para a globalização dos mercados com outros olhos e passou a defender uma política industrial que garanta uma razoável dose de “soberania econômica”. Está mais atenta à propaganda chinesa.

A última cimeira com a China, a 22 de Junho por vídeoconferência foi a mais dura de sempre. Não houve comunicado final, apenas duas declarações separadas.

https://drive.google.com/file/d/1Nkpf4bF135-BlnL06xvVrFmSWF8Q4SXb/view?usp=sharing

A Europa está consciente que, no caso de uma nova guerra fria entre as duas superpotências, o terreno do conflito seria o seu território. Já não sob a forma de mísseis nucleares, mas de “guerra tecnológica”, na qual os europeus ainda estão bastante desarmados, e de uma guerra política entre duas visões do mundo e da sociedade.

Mais cedo ou mais tarde, a Europa vai ter de escolher. A questão está em saber com que América terá de negociar a renovação da relação transatlântica.

A viagem de circum-navegação do globo terrestre iniciada na China em 1421 teria durado cerca de dois anos. No final, só sete barcos regressaram, tendo encontrado um país que, devastado pelo caos econômico e social, decidiu abandonar um empreendimento tão custoso, optando por se autoisolar do mundo.

Seis séculos depois, o fenômeno Covid-19, expressão evidente do denominado “Efeito Borboleta” ou Teoria do Caos, descrito por Edward Lorenz em 1963, não terá seguramente o mesmo desfecho. Segundo a cultura popular, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez, provocar um tufão do outro lado do mundo. Um espirro na China afeta toda a Humanidade.

Ficou claro com a pandemia que os países precisam estar mais preparados para não depender exclusivamente da China, por mais poderosa que seja essa superpotência.

https://drive.google.com/file/d/1vJrQ6YwYxDIxA5g2mxCBFRdoBKzIL1pW/view?usp=sharing

Milton Blay

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