Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris   Nos últimos dias, os libaneses saíram às ruas para contestar a classe política que... O Mundo num Instante: A tragédia do Líbano – guerras, corrupção, explosão, crise econômica

Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris

 

Nos últimos dias, os libaneses saíram às ruas para contestar a classe política que acusam de ter “as mãos sujas de sangue”. Os governantes, que sejam cristãos maronitas, muçulmanos sunitas ou xiitas, e demais políticos, são apontados como os responsáveis pela explosão do depósito de nitrato de amônio que causou a morte de cerca de 160 pessoas, deixou 60 desaparecidos, 6 mil feridos e 300 mil desabrigados. Segundo as autoridades do porto, as 2700 toneladas estavam ali armazenadas há seis anos. Era uma bomba-relógio. 

 

https://drive.google.com/file/d/1iA0EzmPOqsKg6uSUdDa6yeP4RTWqsv_d/view?usp=shar

 

O navio russo Rhosus, com 2.750 toneladas de nitrato de amônio a bordo, carregados numa fábrica de fertilizantes na Geórgia e que atracou em Beirute em 2013, tinha como destino uma fábrica de explosivos em Moçambique, afirmou à agência de notícias Reuters, o cidadão russo Boris Prokochev, seu ex-capitão.

https://drive.google.com/file/d/1vOgZxMUd4x3pEaQYHKkoG4XS1dy2RfNP/view?usp=sharin

Metade da cidade de Beirute foi atingida pelas explosões. Calcula-se que os prejuízos possam chegar aos 15 bilhões de euros, R$ 25 bilhões. 

Ao longo dos últimos seis anos, as autoridades portuárias enviaram seis cartas ao governo do país informando dos riscos de se armazenar a substância em uma área populosa. A correspondência foi toda ignorada.

O nitrato de amônio (NH4NO3) não é usado apenas em plantações: é um componente típico de explosivos de baixo custo empregados pelas indústrias da mineração e a construção civil – e com frequência também por grupos terroristas e milícias. 

Enquanto se apuram responsabilidades, a contestação ao executivo do primeiro-ministro Hassan Diab cresce e nem o anúncio da prisão domiciliar de 16 funcionários do porto de Beirute tranquilizou os libaneses, que se manifestam e que cada vez acreditam menos na sua classe política, num país que atravessa uma profunda crise econômica. O primeiro-ministro promete eleições antecipadas.  

Além de ineptos, os políticos são acusados de corrupção. A expressão mais utilizada para definir o governo do Líbano é “sistema corrompido”.

No país tudo é possível desde que o cidadão tenha dinheiro para distribuir debaixo do pano aos funcionários, deputados ou chefes das comunidades étnico-religiosas: obter papéis de estado civil, emplacar um carro, ter acesso à saúde e à educação, conseguir um emprego.  Enfim, toda a máquina do Estado só funciona com propina, conhecida como batchiche. O primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, disse neste sábado (8) que a corrupção causou a explosão no porto de Beirute.

https://drive.google.com/file/d/1VkyzP-S797EZoT861Z1cL9j7Ix9L-Cl0/view?usp=sharing

Além disso, os bancos adotaram um sistema piramidal. Os bancos atraem fundos estrangeiros, com altas taxas de juros, antes de emprestar esse dinheiro ao Banco do Líbano, que por sua vez reembolsa com juros ainda maiores. Os bancos pagam os juros com o dinheiro dos novos clientes. E assim sucessivamente. 

Resultado: o endividamento do Estado eleva-se a 90 bilhões de euros, 170% do Produto Interno Bruto (PIB). 

50% da população vive abaixo do nível da pobreza, com menos de US$ 1 por dia. 

A democracia não passa de uma farsa.  

Para manter um equilíbrio entre as diferentes comunidades, criou-se no Líbano, no final da guerra civil, de 1975 a 1990, um sistema político de divisão dos poderes. Assim, segundo a tradição constitucional, o presidente deve ser um cristão maronita, o primeiro-ministro um muçulmano sunita, o presidente do Parlamento um muçulmano xiita. Esperava-se assim preservar a coesão do país.

Só que o resultado foi o contrário do esperado; houve uma progressiva fragmentação da sociedade entre as redes confessionais. 

Segundo o World Factbook da CIA, há 54% de libaneses muçulmanos, 40% de cristãos e 4% de drusos.

https://drive.google.com/file/d/1U6LvgdHo0SKj0eld1mmqZs96oBnkVO6k/view?usp=sharing

A história libanesa é uma história de guerras. Uma guerra civil de cinco meses irrompe em 1958 quando os muçulmanos, apoiados pelo Egito e pela Síria, pegam em armas contra o regime pró-ocidental.

Após a derrota árabe na Guerra dos Seis Dias de 1967, as primeiras bases palestinas são estabelecidas no sul do Líbano, na fronteira com Israel e a Síria.

Em 1969, o Líbano legaliza a presença palestina armada no seu território.

Na sequência dos sangrentos confrontos do Setembro Negro na Jordânia em 1970, a Organização de Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat retira-se para o Líbano. Seu objetivo é destruir Israel. 

Em 1975, uma guerra civil de 15 anos começa com milícias cristãs que combatem palestinos, os quais são apoiados por forças de esquerda e muçulmanas.

No ano seguinte, o exército sírio intervem.

Em 1982, Israel invade e sitia Beirute. Arafat e 11.000 combatentes palestinos evacuam a capital.

https://drive.google.com/file/d/1NOUjTXaBg4WOvcVhajJmSLM4HX8skGOR/view?usp=sharing

Em setembro desse mesmo ano, uma milícia cristã massacra pelo menos mil  pessoas nos campos palestinos de Sabra e Shatila, nas proximidades de Beirute, pelas falanges cristãs, apoiadas por Israel.

O filme Valsa com Bashir conta a história do massacre: 

https://drive.google.com/file/d/1NOUjTXaBg4WOvcVhajJmSLM4HX8skGOR/view?usp=sharing

A guerra termina em 1990. Mais de 150 mil pessoas foram mortas no conflito e 17 mil desapareceram.

Começa uma nova era de dominação do país. A presença militar e política da Síria é cimentada num tratado de 1991 entre Damasco e Beirute.

Israel mantém a sua ocupação do sul do Líbano, retirando-se apenas em 2000.

Em 2005, o antigo primeiro-ministro libanês Rafic Hariri é morto num atentado em Beirute, assim como outras 21 pessoas. Os que se opõem à Síria culpam Damasco.

Manifestações maciças levaram a que todas as tropas sírias se retirassem do Líbano no mesmo ano, pondo fim a uma dominação de 29 anos.

Em 2006, eclodiu um outro conflito entre as forças israelenses e o movimento xiita libanês Hezbollah, fundado em 1982 durante a guerra civil, apoiado pelo Irã e Síria.

A devastadora guerra de 34 dias custa ao Líbano cerca de 1.200 vidas, na sua maioria civis.

Em 2013, dois anos após o início da guerra civil da Síria, o Hezbollah intervém em apoio ao governo genocida de Bashar-al-Assad.

O conflito sírio fortalece a divisão das coligações políticas do Líbano e aumenta ainda mais os problemas do país. Em julho havia 890 mil refugiados sírios no país.

https://drive.google.com/file/d/1EmkNg9aczBDnXL0wYvL3Sxy8sVegBXXq/view?usp=sharing

O líder do grupo armado Hezbola, Hassan Nasrallah, negou sexta-feira que o grupo armado libanês, considerado terrorista pela comunidade internacional, tenha qualquer ligação com a explosão no porto de Beirute da última terça-feira.

“Não temos nada no porto; disse ele: nem um depósito de armas, nem um depósito de mísseis, nem espingardas, nem bombas, nem balas, nem nitrato de amônio”, garantiu Nasrallah, num discurso transmitido pelas televisões. 

Foi desmentido por vários órgãos da imprensa internacional, que acusa o Hezbola de armazenar o nitrato para utilizar contra Israel. Os drusos libaneses também acusam o Hezbola. 

Já o Presidente libanês, Michel Aoun, que, tal como o primeiro-ministro Hassan Diab, disse que na origem da explosão estavam 2700 toneladas de nitrato de amônio armazenados há seis anos no porto de Beirute, insinuou que “existe a possibilidade de interferência externa” na explosão, apesar de não ter apresentado qualquer prova nesse sentido. Mas ambos rejeitaram os pedidos para uma investigação internacional independente.

Experts militares e geopolíticos não acreditam que Israel tenha sido responsável. Segundo eles, não teria nada a ganhar com um ataque e muito a perder. 

Várias organizações das Nações Unidas alertam para um país no limite, que pode ficar sem comida e cujos hospitais não conseguem dar resposta à elevada procura. Temendo os estragos causados no porto, que destruiu o silo de cereais, num país que importa mais de 85% da sua comida e mais de 90% dos seus cereais.

Só a solidariedade internacional poderá fazer com que à catástrofe das explosões se some a da fome. 

Fiquem com Shim El Yasmine/Erik Truffaz Quartet, uma banda de jazz libanesa, formada por músicos gays, proibida em vários países da região por defender a cultura LGBT.

A letra da música é um poema:

Cheire o jasmim

Prove do mel (do melaço)

E se lembre de lembrar de mim

Cara, não me esqueça (*cara, ao pé da letra, seria “irmão”, um vocativo)

Meu amor, meu orgulho

Eu gostaria de ter mantido você perto de mim

Apresentado você a meus pais, coroado você em meu coração

Cozinhado sua comida, varrido seu lar, mimado seus filhos, sido sua esposa

Mas você está em sua casa, e eu estou em outra casa

Deus, eu desejaria nunca ter deixado você ir

Cheire o jasmim

E se lembre de me esquecer

https://drive.google.com/file/d/1vclNL6Xp0jj6AtwlQ4qY6VEjoXil_UG_/view?usp=sharing

 

 

Milton Blay

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