Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris Vamos tentar entender um fenômeno atualíssimo: o racismo ligado à extrema-direita, com mais um triste... O Mundo num Instante: O avanço do racismo em Portugal

Por Milton Blay, correspondente da TV Democracia em Paris

Vamos tentar entender um fenômeno atualíssimo: o racismo ligado à extrema-direita, com mais um triste
episódio desta vez em Portugal.

https://drive.google.com/file/d/1zMDHbGSmfuDesaDuLjgl0QJn2vk0q6tE/view?usp=sharing

Há um mês, na noite de 17 para 18 de Julho, a fachada da sede do SOS Racismo em Lisboa foi vandalizada com a frase “Guerra aos inimigos da minha terra”, “parada Ku Klux Klan”.

Nem um mês depois , na noite deste sábado uma dezena de “nacionalistas” juntou-se em frente àquele edifício com máscaras brancas e tochas, numa iconografia semelhante à dos supremacistas brancos Ku Klux Klan, que fizeram linchamentos de afro-americanos nos Estados Unidos, refere aquela organização anti-racista. O mesmo ritual
é usado pelos neonazistas ucranianos do grupo Azov, em cujos campos de treinamento militar vários brasileiros foram formados.

https://drive.google.com/file/d/1UrKNdue_u4BPU0O4eQjulc71vqr3vRWB/view?usp=sharing

Na manifestação racista do final de semana, estavam elementos da Nova Ordem Social de Mário Machado, organização suspensa pelas autoridades portuguesas.

https://drive.google.com/file/d/1Zhe8bqc5DXkmEBH2aD393jKyPP2aQ8a9/view?usp=sharing

SOS Racismo juntou a este episódio outras ameaças e irá registrar queixa ao Ministério Público por ameaças à integridade física, ofensas morais, danos patrimoniais e incitamento ao ódio e violência.

Numa página de Facebook sob o nome de Resistência Nacional, os membros do grupo publicaram imagens suas naquela ação com casacos com capuz e máscaras brancas a esconder totalmente o rosto, empunhando tochas e um post em que dizem ter ido protestar contra o  que descrevem como “racismo anti-nacional” e “homenagem aos
polícias mortos em serviço”.

Segundo disse o SOS Racismo, desta vez não havia registro de vandalização na fachada, mas não descartam a ligação entre o ato anterior e este.

Um dos dirigentes do SOS, Mamadou Ba, comentou ao jornal português Público: “Isto é uma escalada. Uma coisa é fazerem uma manifestação no espaço público em que assumem uma posição política contra o anti-racismo, o que é inaceitável em democracia, mas, elegerem uma organização anti-racista como alvo a abater, fazer ameaças de
morte e, não contentes, fazerem uma parada militar à moda de Ku Klux Klan ultrapassa todos os limites do confronto ideológico”.

Ele classifica o ato  de “terrorismo político” e afirma que é preocupante “a manifestação de um ‘à vontade’, cada vez maior, em achar que podem usar a intimidação e a coação ao antirracismo como forma de disputa política”.

https://drive.google.com/file/d/1VIwDs7CXne7OdDXSu7ESB72BCod7V6S8/view?usp=sharing

SOS Racismo não tem dúvidas “de que o motivo destes ataques e destas ameaças é silenciar o combate ao racismo, através de intimidações”.

Em junho,  vários locais na área metropolitana de Lisboa foram alvos de ataques com mensagens racistas, xenófobas e ameaças — locais como o Conselho Português para os Refugiados ou o mural de homenagem ao anti-fascista José Carvalho, assassinado por skinheads .

O relatório anual de 2019 da Europol sobre a situação e tendências do terrorismo na União Europeia alerta para a ação de três grupos de extrema-direita ativos em Portugal, a níveis nacional e internacional.

“Em Portugal, o Blood & Honour, o Portugal Hammer Skins e o recém-criado movimento neonazi Nova Ordem Social estão ativos tanto a nível nacional como internacional”, lê-se no relatório deste ano da
Europol, serviço europeu de polícia, referente a 2018.

https://drive.google.com/file/d/1YkkR3nSuA9Lcxx7YhQj3ekv8d-kZxPEk/view?usp=sharing

Num dos e-mails que SOS Racismo recebeu recentemente anunciava-se uma nova organização de extrema-direita com os dizeres: “para cada nacionalista preso cairá um anti-fascista e para cada nacionalista morto desaparecerão dezenas de estrangeiros”.

A Resistência Nacional, criada no início de julho, diz ter como objetivo organizar “protestos silenciosos” em frente a instituições que consideram anti-patriotas. É composta por antigos elementos da Nova Ordem Social, entretanto suspensa por Mário Machado, do Partido Nacional Renovador e membros dos Portugal Hammer Skins. Também tem apoiantes do Chega, de André Ventura, e elementos ligados ao grupo de futebol 1143, da torcida do Sporting.

https://drive.google.com/file/d/1vrphG_vmlWFnZn2FM4tHc_g8Hiknxvm-/view?usp=sharing

Nos últimos anos, os torneios de artes marciais têm servido para recrutar, confraternizar e criar ligações entre movimentos de extrema-direita, de Portugal à Rússia. Há militantes portugueses que participam de torneios organizados por figuras e grupos ligados ao ucraniano Movimento Azov, uma organização de extrema-direita criada em 2014, que em Portugal vê no Escudo Identitário um aliado.

https://drive.google.com/file/d/1C_3XQx6wesfaumyxW0eRX38eFJl50ve5/view?usp=sharing

Entre os brasileiros que receberam treinamento na Ucrânia, ministrado pelo grupo Azov, está a conhecida Sara Winter. A Ucrânia é hoje o principal polo da extrema-direita mundial e Azov, abertamente neonazista, estendeu tentáculos por toda a Europa e mundo afora.

Vale a pena relembrar alguns números, que já demos aqui no programa: O Brasil conta 334 células nazistas em atividade, de acordo com uma pesquisa feita por Adriana Abreu Magalhães Dias, antropóloga da Unicamp.

A maioria dos grupos se concentra nas regiões Sul e Sudeste e se dividem em movimentos distintos, entre hitleristas, supremacistas/separatistas, de negação do Holocausto ou seções locais da Ku Klux Klan.

Há registros de grupos localizados em Fortaleza, João Pessoa, Feira de Santana (BA) e Rondonópolis (MT). Porém, o estado com mais células é São Paulo, com 99 grupos, sendo 28 só na capital. Santa Catarina vem logo atrás com 69 células, seguido do Paraná (66) e Rio Grande do Sul (47).

As células são compostas por três a 40 pessoas.

Também foram identificados mais de 6.500 endereços eletrônicos de organizações nazistas em língua portuguesa e dezenas de milhares de neonazistas brasileiros em fóruns internacionais.

São igualmente assinaladas as atividades na “cena musical” deste tipo de grupos em Portugal e no resto da Europa. A associação com Hitler e, por consequência, ideias da extrema direita, seria levada ao limite com as bandas de black metal da Escandinávia.

Por um lado, havia a glorificação da iconografia nazista, como o canhão do exército de Hitler mostrado na capa do disco “Panzer Division”, dos suecos do Marduk. Por outro, houve um crime de ódio, quando o
baterista da norueguesa Emperor esfaqueou um homem gay em um parque da pequena Lillehammer.

https://drive.google.com/file/d/1C_3XQx6wesfaumyxW0eRX38eFJl50ve5/view?usp=sharing

No começo dos anos 1990, incêndios criminosos de igrejas cristãs na Noruega terminariam com a prisão do fundador da banda Burzum, Varg Vikernes. Um dos nomes mais influentes do gênero, ele argumentava que era necessário defender uma suposta pureza viking contra a invasão do catolicismo.

Em termos europeus, a Europol classifica o terrorismo na Europa como uma ameaça à segurança dos estados-membros, lembrando vários atentados, entre eles um atribuído à extrema-direita na Itália.

Em março, o RASI de 2018 alertou que a tensão entre a extrema-direita e os grupos antifascistas “se agravou significativamente”, gerando “um clima potenciador da violência ideologicamente motivada”, “por
responsabilidade de ambas as partes”, extremistas de direita e grupos antifascistas.

A Nova Ordem Social portuguesa participou de uma manifestação com mais de dois mil nacional-socialistas em Sófia, em fevereiro de 2019, em homenagem a um general pró-nazi búlgaro, assassinado por dois militantes antifascistas em 1943.

Num dos vídeos que apresentam no Facebook escrevem: “os dias da esquerda estão contados, a vingança não tardará” e evocam imagens de saudosismo do salazarismo.

Vários vídeos publicados pelos grupos nacional-socialistas portugueses nas redes sociais são ilustrados com música de Richard Wagner associada ao nazismo.

https://drive.google.com/file/d/1uxz8jtakq2LKENJrVLn9UD3eTvQElcHD/view?usp=sharing

Milton Blay

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